Guerra, urgência e tempo

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A guerra entre Rússia e Ucrânia pôs em evidência a condição de pessoas em situação de refúgio. Nas duas primeiras semanas do conflito, quase três milhões de ucranianos migraram a países vizinhos e estima-se que esse número dobre até que uma solução se estabeleça. Pessoas forçadas a deixar suas terras, suas famílias, sua língua e sobreviver em ambiente estranho.

Mas essa precariedade não se restringe à região do leste europeu. Dados da ACNUR, agência ligada à ONU, relatam que, em 2021, mais de 84 milhões de pessoas viviam longe de suas casas por causa de guerras, conflitos ou perseguições. O número é equivalente à população da Alemanha, país europeu que, até o momento, já recebeu mais de 120 mil exilados da Ucrânia desde o início do conflito, segundo a CNN Brasil.

Leio as notícias e penso nos poemas de Leonardo Tonus no excelente livro “Diários em mar aberto” (Ed. Folhas de Relva, 2021). “entre o ser e o tornar-se, nada se faz presente em minha urgência que espera”, escreve o autor. Uma urgência que é, sim, por alimento, abrigo, trabalho. Mas esta urgência também “... espera por palavras. espera por olhares”. Olhares que os acolham, palavras que abracem sua existência.

A instabilidade da existência é retratada nas fotos dos jornais e telas de TV. Acolhidos pelos braços da poltrona, vemos a destruição de um hospital por míssil de última geração, a dezenas de milhares de quilômetros. Abraçados pelas grades dos portões que nos separam da realidade na rua a poucos metros, observamos, enfastiados, as lentas negociações para o fim do conflito. A guerra, como entretenimento, perde força para as eleições de 2022. Assim como a covid, que mata, só no Brasil, mais de 400 pessoas por dia, ocupou as primeiras páginas e agora é estatística. Pessoas em situação de refúgio, mortos na pandemia, eleitores desempregados, suas imagens são apagadas gradualmente da nossa retina e nossa memória, de nossa urgência.

De onde vem essa dificuldade para enxergar realidades tão frágeis? O que era distante – a Ucrânia, vítimas da covid, desemprego – se torna, de repente, tão próximo e, como mágica, some quase instantaneamente. O que existiu, um nanossegundo antes, já escapou da retina e daqui a pouco some da memória?

Talvez tenhamos dificuldade de nos lembrar do que aconteceu instantes atrás porque o presente nos escapa. O fluxo de acontecimentos é tão intenso e nos ocupa de tal forma que fica quase impossível rememorar o passado recente. “que memórias tem a memória do seu tempo? / do tempo sem memória / de nossas memórias sem tempo?”, diz Tonus num dos poemas do livro.

Ou porque, tão escasso esse nosso tempo, temos medo de nos ocupar com o tempo do outro e, assim não lhe damos espaço? Espaço para se abrigar, para ocupar uma nova terra, para existir como cidadão, com RG, endereço de residência e direitos civis que lhe garantam um mínimo de dignidade.

Num país forjado por migrantes, imigrantes, como é o Brasil, nosso espaço único se fortaleceu também com o embate de ideias, de visões de mundo, tão necessário à construção de um pensamento crítico. Corremos o risco, ao ignorar o outro, aquele que foge da guerra distante ou da fome, aqui nas esquinas, de perder a capacidade de refletir e, portanto, de construir algo novo a partir dessas reflexões. Sem tempo para o outro, pode não haver espaço para nós mesmos num futuro não tão distante.
Nosso tempo, hoje, tão escasso, pede mais urgência do que a urgência de vidas que fogem.

 

Publicitário, escritor e vice-presidente da União Brasileira de Escritores (UBE-SP). Autor do romance “Através”.

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