Amando Petrópolis

Para Bruno Albuquerque, em memória de Bernardo e Sarah

Talvez meu amor por esta cidade das montanhas da Serra do Mar esteja ligado a algo mais visceral do que sua beleza ao mesmo tempo augusta e pacífica; a seu clima ameno, tão convidativo quando o Rio ferve sob 40 graus à sombra. Talvez não seja apenas as doces recordações dos verões passados aqui, quando meus filhos eram pequenos e eu os via correr com amigos – tantos e tão queridos – e saírem em bando e em segurança para festinhas e bailinhos de carnaval.

Não, não é apenas uma memória nostálgica de dias pacíficos e descansados, vividos e desfrutados sem pressa e com sabor delicioso. Em meio a toda essa teia de amores vividos na cidade florida e acolhedora está a figura de meu pai, que adquiriu a casa que agora herdei. Quando aqui estou, lembro-me do último verão que aqui passamos com ele saudável e forte, cuidando do jardim e sobretudo da jabuticabeira que todo ano enchia os galhos com redondas e saborosas frutinhas pretas. E sorvíamos a polpa e éramos felizes.

Eu tinha oito anos nesse verão e minha infância foi duramente atingida por sua morte alguns meses depois, levado prematuramente por uma doença cruel e fulminante. Não voltei mais a Petrópolis por muitos anos. Já casada e com meu segundo filho recém-nascido, revisitei a casa da minha infância e fui feliz outra vez. E agora, já avó, aqui venho descansar e cuidar desta casa, recebendo ocasionalmente a visita de filhos, netos e amigos.

Aqui estava no dia 15 de fevereiro, quando a água parecia querer carregar com sua força e fúria a cidade da minha infância. Durante três a quatro horas assistimos, impotentes, desde o interior da casa a cortina de água que não permitia sequer ver o jardim e muito menos a calçada. Quando amainou, olhamo-nos nos olhos, meu marido e eu, com a intuição silenciosa e pasma dos sobreviventes. Pouco depois, a luz acabou. A casa estava intacta e nós também. Mas ainda não sabíamos de toda a extensão da catástrofe que havia retalhado a cidade que amamos.

Dois dias sem eletricidade, obrigada a ir ao café da esquina para tranquilizar familiares e amigos, desmarcar compromissos de trabalho em home office etc. Foi esse o tempo também de receber as notícias trágicas, que nunca gostaríamos de ter lido e ouvido. As perdas, os desastres, mas sobretudo as mortes. São notícias que dão ao mesmo tempo a medida do tamanho da catástrofe, mas igualmente da capacidade de resiliência do ser humano e sua incrível resistência em meio à adversidade.

São imagens que jamais abandonarão minhas retinas e minha memória. A mãe cavando o barro com uma enxada em desesperada tentativa de encontrar o corpo da filha adolescente. O pai que, constatando que o esforço das buscas ia na direção de escavar os escombros em busca de corpos, passou a buscar por conta própria o filho adolescente que tomara um ônibus e fora tragado pelo rio e se encontrava perdido na rede fluvial da cidade. O jovem professor que celebrava o primeiro dia do filho de cinco anos na escola e em minutos perdeu a casa e tudo que possuía, porém mais que isso: os sogros, a esposa, o filho que levava ao colo e a filhinha bebê de um ano de idade.

Como não se enlouquece vivendo uma situação dessas? De onde vem a força que faz seres humanos que passaram por essa tragédia ainda conseguirem falar, dar entrevistas à mídia, explicar, resistir e sobretudo...continuar? Além desses, as centenas de desabrigados que não têm onde morar e dependem da solidariedade alheia; como despertam a cada dia e seguem em frente?

Sentimento análogo era o que emergia olhando para a cidade bela e querida. Suas ruas e seu centro histórico encontravam-se enlameados, com muitos edifícios, lojas e casas totalmente destruídas. O cenário era de guerra. Nos bairros onde havia construções nas encostas, derrubadas pelos deslizamentos, o lixo misturava-se aos destroços e ao barro. E neste cenário de guerra bombeiros e cães farejadores buscavam corpos. Fotos, objetos e pertences se misturavam ao rastro da lama e da destruição, carregando consigo a história de vida de tantos e tantas.

Petrópolis agora não é mais apenas o suave lugar da minha paz e a doce recordação da minha infância e da infância dos meus filhos. É um lugar de sofrimento e dor. A cidade que amei e amo está ferida e precisa ser reconstruída. Tenho fé que assim será. O volume da solidariedade que chegou após a chuva dá a dimensão de como essa cidade é amada.

Apesar da negligência e da incúria do poder público, da falta de um planejamento urbano, aliado à mudança climática e às tempestades de verão que todo ano acontecem e vitimam algum ponto dessa bela serra fluminense, e a fizeram cair e deslizar sob a lama, ela ressuscitará.

Para isso é necessária a persistência na solidariedade e igualmente na reivindicação de um melhor planejamento urbano. É necessário um amor forte e constante que crê ser a vida mais forte que a morte. Mas também e não menos uma prática de amor que ampare os que estão desamparados e confia que Deus não paira acima dos acontecimentos, sofre junto com as vítimas, chorando seu pranto e dando força a seu coração.

Amando Petrópolis... sempre.

 

Maria Clara Bingemer é professora do D epartamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Experiência de Deus na Contemporaneidade: Entre o viver e o contar” (Editora Paulinas), entre outros livros.

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