A urdidura do urso russo

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Talvez, quando você estiver lendo este artigo no domingo - por razões editoriais escrevo na sexta-feira - Kiev já tenha sido subjugada e um novo governo mais alinhado com Moscou esteja tratando de lavar o sangue derramado durante a invasão.

Não há ingênuos neste jogo. Lembremo-nos da invasão do Iraque e o caos dela derivado. A diferença agora é a linguagem de Putin, calcada numa estratégia de “ falsas verdades”, semelhante à retórica de Bolsonaro a que já estamos afeitos, embora a consideremos um desafeto, um desrespeito à inteligência nacional.

As acusações de que o governo ucraniano seria formado por “neo-fascistas“ e de que haveria um genocídio contra russos em províncias rebeladas, mal escondem a fragilidade do argumento endereçado à invasão de um país independente.

Nesta última semana, os princípios básicos do Direito Internacional público foram meras figuras literárias, repetidos como mantras a pagar homenagens à Carta das Nações Unidas, epítome de num novo tempo após a carnificina da Segunda Guerra Mundial. Com a quase imediata instalação da guerra fria e a divisão Leste-Oeste, os ideais da Carta se tornaram folhas secas, prematuramente outonais.

A novidade trazida pelo discurso de Putin é a reintrodução da defesa das esferas de influência entre superpotências e a reivindicação de novas demarcações de fronteiras, em que a soberania do Estado se vê ameaçada pela política da agressão militar, sem prévio esgotamento de negociações pacíficas.

Esta nova concepção de um Direito Internacional claramente vinculado à esdrúxula configuração de democracias iliberais parece firmar-se no solo de autoritarismo e mandonismo, e espalha-se como a face externa do processo de corrosão das liberdades e direitos fundamentais inscritos em nossa Constituição de 1988.

Quando Putin ameaça disparar mísseis jamais pensados sobre os movimentos de solidariedade à Ucrânia, transpõe a insegurança de mecanismos autoritários domésticos para o cenário internacional. O memorando de entendimento entre China e Rússia merece leitura iluminada também por essas novas fraturas geográficas e geopolíticas. Ao mesmo tempo, Putin recheia de simbolismo tão ou mais preocupante ao dar início à intervenção militar no mesmo dia e hora em que o Conselho de Segurança das Nações Unidas se debruçava sobre o contencioso Rússia- Ucrânia. Nada é gratuito na geopolítica da arrogância.

Só quando se está ciente da gestação de um duplo movimento de cerceamento da Democracia pelo autoritarismo interno e pela ameaça aos princípios do Direito Internacional se poderá compreender o risco de ver implementados mecanismos mutuamente interligados de demolição da soberania popular de um lado e da boa legislação eleitoral de outro.

Não há porque mostrar escrúpulos em ressaltar que o próprio governo semeou entre os eleitores deste país uma suspeita de manipulação indevida de urnas eletrônicas, até então motivo de orgulho da cidadania brasileira. Não há também porque ignorar os ataques cibernéticos ocorridos nas eleições de 2018, examinados e praticamente comprovados por perícias qualificadas. Finalmente, não há porque escamotear que há vinculação entre equipes eleitorais de Bolsonaro e Trump, este último claramente hostil ao procedimento eleitoral em seu país a ponto de colocar em risco o bom encaminhamento dos mandatos decididos pela sociedade norte-americana.

Quando igualmente se sabe que tanto o FBI quanto a CIA se dedicam a desmascarar a interveniência ilegítima e provavelmente articulada de “hackers “ no processo eleitoral de 2018 nos Estados Unidos e que o Presidente da República em sua recente viagem à Rússia teria entabulado negociações ,diretas ou indiretas, com detentores do know-how sobre esta tecnologia e, ao mesmo tempo, tenha por reiteradas vezes afirmado seu desconforto com as supostas fragilidades das urnas eletrônicas, cabe à cidadania redobrar sua vigilância sobre às eleições brasileiras em 2022.Nunca o sovado jargão udenista de que “ o preço da liberdade é a eterna vigilância “ deveria,como agora, assombrar a classe média brasileira.

Para completar, deve- ter presente que a minuta de memorando de entendimento entre Putin e Bolsonaro assinala a cooperação entre Rússia e Brasil nos temas do conselho de segurança das Nações Unidas. Proposta mais do que infeliz quando se dá a invasão da Ucrânia pela Rússia. Com a demolição da diplomacia brasileira no governo Bolsonaro, o que mais deveria preocupar o Estado brasileiro deveria ser a restauração de nossa credibilidade e respeito no âmbito internacional.

Temo estejamos vendo o aprofundamento de nossa imersão nas areias movediças do autoritarismo e da democracia iliberal,conduzido por gente da mais patética ignorância política e do mais indecente propósito de futuro para nossos filhos e netos. Bolsonaro escancarou esta semana sua opção pelo poder a qualquer preço. E oferece seus serviços à continuação do desmantelamento de nosso país pela banda podre do trio Deus, Pátria, Família, codinome do novo autoritarismo neoliberal.

Somos, definitivamente, um gigante de pés de barro. E bolsos de ouro. De fartos bolsos de ouro.

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