A estratégia do Estado arrogante

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As duas pesquisas sobre o governo brasileiro tornadas públicas esta semana devem ter mostrado à saciedade estar o povo brasileiro muito longe de ser a massa amorfa sujeita a manipulações pela mentira. Em ambas,há uma expressiva rejeição ao discurso governamental sob qualquer de suas formas.

Neste ponto, convenhamos, somos bem mais sofisticados que o povo dos Estados Unidos da América que soçobrou com muito mais facilidade à não-verdade do discurso político de Trump.

Sempre é bom recordar, como aliás se torna cada vez mais evidente, que se buscou transpor p ara o Brasil o método tecnológico-fraudulento de campanha eleitoral tão bem urdida pela máfia de Steve Bannon, hoje finalmente desmascarado pelos inquéritos oficiais e pelas denúncias jornalísticas americanas. Lá, porém, a penetração do trumpismo ainda viceja em boa parte do Partido Republicano.

Apoiadores de Bolsonaro na campanha eleitoral argumentavam ser ele o Trump brasileiro. Após a eleição, vimos a sem cerimônia com que áulicos daqui e de lá se lançaram nesta aventura. Palma de Ouro para nosso Chanceler de então que chegou às lágrimas em público ao comparar a coincidência de Trump e Bolsonaro governarem os grandes gigantes das Américas, uma bênção de Deus a favor do Ocidente. Fato negado por todos os bem informados sobre os desígnios de Deus.

Para encurtar histórias já sabidas, hoje Trump amarga um crescente retorno ao limbo político e aqui no Brasil se contabilizam diariamente os retumbantes fracassos de uma política desastrada.

Seria injustiça atribuir apenas ao presidente as razões deste despautério. Nosso eminente ministro da Economia disputa com ele a Grã-Cruz da hipocrisia nacional por insistir em engabelar a sociedade brasileira. A rigor, nosso ministro conseguiu o impossível para um neoliberal de alto coturno ao fazer bater em retirada do país o Escritório de Representação do Fundo Monetário Internacional (FMI).

A imprensa deu pouca importância ao fato e engoliu as explicações diplomáticas do porta-voz da instituição ao alegar que o fechamento do Escritório decorreria do esgotamento normal de suas atividades no Brasil.

A verdade é bem outra. A primeira delas é a de que desde o governo Lula deixamos de ser devedores do FMI e até nos tornamos dele credor. A segunda decorre de que também desde o governo Lula fizemos um estoque razoável de reservas que, embora já mordidas pelo atual governo, ainda funcionam com nossa âncora a nos proteger de ataques à moeda.

Na realidade, o FMI se vai como quem não quer se comprometer com uma política econômica delirante e com um ministro da Economia a acusar as estatísticas e prognósticos do FMI sobre nossa economia como pintadas nas tintas da ideologia e escritas com a pena da crítica engajada. Quem diria. Talvez, Brás Cubas.

O que fica difícil para o FMI, tão neoliberal como sempre, seria expressar desaprovação uma política econômica que se apregoa tão aberta ao capital estrangeiro sem que entre um níquel de investimento, assustado com a flexibilidade de nossas leis que agora deram até para não reconhecer a obrigação de pagar o devido. Vide a nova legislação baixada pelo Centrão.

Onde a mentira e a hipocrisia grassam como ervas daninhas ainda é com a Saúde da população. A celeuma criada com a medida prudencial de exigir passaporte de vacinação dos turistas que aqui aportam só revela nosso primitivismo em não reconhecer que o primeiro a fugir de eventos turísticos em que multidões podem estar infectadas ou a serem infectadas será o próprio turista.

Porém nada se compara à reação digna de Herodes diante da decisão da ANVISA de aprovar a vacina conta Covid para crianças de 5 a 11 anos. Quando ouvi dizer que se buscava saber os nomes dos técnicos brasileiros que a haviam aprovado, imaginei que o presidente pretendia condecorá-los com a ordem ao mérito e com eles tirar uma fotografia para as primeiras páginas dos jornais. Triste ilusão.

Do episódio fica a dignidade do almirante Barra Torres que como honrado homem do mar mandou elaborar a lista com o nome de todos os funcionários da ANVISA, seu próprio nome dentre eles, como o Comandante que naufraga junto com sua tripulação. Coisa rara hoje no Brasil.

Enfim, são episódios deprimentes e provocações desnecessárias. Temo que esta estratégia arrogante vá continuar com o mais do que óbvio interesse de, quem sabe, promover arruaças e quebra-quebra com vistas a justificar um regime de exceção. Nesta hora, talvez se surpreendam os agitadores com a sabedoria do povo. Setenta por cento dele não acredita numa palavra quanto mais numa provocação. Arma por arma, fico com o voto.

Bom Natal. Saio de férias. Vou apontar os lápis. Dia 16 volto.

*Embaixador aposentado

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