A disrupção digital e a 'figitalidade' da vida: desafios para as eleições de 2022

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A sucessão presidencial de 2022 está sendo jogada desde o início de 2021. Na verdade, desde o estabelecimento da reeleição, passamos a ter essa característica: a campanha para a reeleição começa no dia primeiro do mandato. Isso complexifica o processo político, pois temos que acompanhar a performance do eleito tanto no seu desempenho como governante quanto como pré-candidato à sua própria reeleição.

Hoje, em novembro de 2021, temos três candidatos "consolidados'' à presidência: Luiz Inácio Lula da Silva, Jair Bolsonaro e Ciro Gomes. Segundo os institutos de pesquisa, Lula está bem à frente na preferência dos eleitores, seguido por Bolsonaro e Ciro. Os três também têm níveis consideráveis de rejeição. Nesse quesito, contudo, a ponteira pertence ao capitão-presidente, seguido por Ciro Gomes e Lula.

Mas uma eleição nunca é definida pelas pesquisas eleitorais, mesmo aquelas publicadas na noite anterior ao pleito. No momento em que estamos, sem que todas as candidaturas estejam definidas, a função precípua das pesquisas é alimentar as estratégias de campanha ou, no caso, nutrir as pré-campanhas eleitorais. Neste sentido, espera-se que até o final do ano novas pré-candidaturas venham a se apresentar, pois existem espaços para que diversas forças políticas, à esquerda e à direita, possam se apresentar à sociedade no primeiro turno das eleições, sem esse proselitismo histérico da "Terceira Via".

De fato, a dinâmica das campanhas eleitorais, em eleições de dois turnos, não permite o artifício monocrático de uma “Terceira Via” contra Lula e Bolsonaro; como um acordo prévio de desistências de outros projetos partidários. As campanhas eleitorais existem para que as posições detectadas pelas pesquisas eleitorais ao longo do tempo sejam como múltiplas fotografias que evoluem para um vídeo. A campanha é sempre uma sequência de episódios, improvisos e recomeços que impactam os eleitores.

Em grande medida esses impactos são feitos pelas rádios, televisões, jornais, sites e blogs, bem como pelo face-a-face com o eleitorado em cada campo, vila ou cidade por cabos eleitorais, lideranças comunitárias, religiosos etc. São feitos também pela presença dos candidatos nesses locais, de modo físico ou não. Hoje, tais presenças são reforçadas pelas novas mídias digitais e redes sociais, de comunicação instantânea, consagradas mundialmente a partir da primeira campanha vitoriosa de Barack Obama nos EUA.

Cumpre destacar que, peculiaridades à parte, todos os candidatos competitivos têm uma estrutura potente de uso das novas mídias e das redes sociais. Logo, não é fato que somente Bolsonaro as tenha usado em larga escala em 2018. Outros também o fizeram. O que aconteceu em 2018 foi que o conteúdo, a retórica, a estética e as falas do “Messias” foram mais convincentes, emocionaram mais os eleitores, sintonizando-se com a "alma nacional" de forma passional.

Também devemos chamar atenção para o fato de que é tolice acreditar que as mídias digitais e as redes sociais substituíram a TV, o rádio e o corpo a corpo dos candidatos. Não! Elas vieram somar, dar agilidade, levar informações aos eleitores on-line, on-time. O que é veiculado por elas gera emoção, impacto, mudanças de comportamento e tomadas de decisão por sua individualização via smartphones e outras plataformas.

Cada eleição para presidente da república tem uma pauta que move os sentimentos do eleitor. Na última eleição a pauta foi o combate à corrupção, com o apoio à "Operação Lava-Jato". Jair Bolsonaro personificou essa pauta e por isso foi vitorioso. A pauta da eleição de 2022 ainda não está definida. O que temos em relação à pandemia é a ligação do atual presidente com os mais de 600 mil brasileiros mortos pela necropolítica sanitária do governo. Assim, certamente o relatório da CPI da Covid-19 também será usado como munição política, criminal e simbólica por todos os candidatos contra Jair Bolsonaro.

Mas o fator preponderante evidenciado pelas pesquisas sobre o desempenho do presidente da república é a consciência crescente de que o Brasil está mal, muito mal. Há uma angústia ainda desfocada, um imenso ceticismo na população. Os problemas são vários e graves. Desemprego crescente, ociosidade de jovens e idosos, ineficiência na geração e desigualdade na distribuição da renda, sem falar na carestia acachapante que economistas e jornalistas contemporâneos chamam de inflação. Os produtos e serviços do dia a dia estão com preços assustadores, caros para valer. Os salários não acompanham a escalada inflacionária, ao mesmo tempo que existe violênicia e muita pobreza. No frigir dos ovos, isso tem gerado muita fome, angústia, medo e sofrimento para os brasileiros.

Em resposta a esses problemas, candidatos como Lula e Ciro sinalizam a criação de milhões de empregos. Infelizmente, essa ideia não se sustenta dentro do novo sistema produtivo nacional e mundial. A ideia de emprego como tivemos até aqui não existe mais. Hoje, temos um sistema produtivo centrado nas novas tecnologias. As indústrias e os serviços estão focados em inteligência artificial e automação. A produção agropecuária tem sua alavancagem calcada em biogenética, robotização da produção e, muito em breve, em processos produtivos com clonagem e células tronco. Portanto, quem quiser falar em emprego vai ter que qualificar e reconceituar suas ideias e propostas. Tudo mais é oco.

Os candidatos que melhor responderão às novas realidades do mercado e do emprego serão aqueles capazes de vocalizar programas perenes de renda mínima para a população, universais, salvo para aqueles que efetivamente não precisarem. Essa renda mínima terá que ser adaptada a uma vida híbrida, física e digital, que os especialistas chamam de “mundo figital”. A disrupção digital - empregada para descrever os impactos e a criação de novas realidades sociais, produtivas e outras relacionadas ao uso das novas tecnologias digitais sobre as tradicionais formas de produção e relacionamentos sociais - também estará presente. Embora cause espanto ou rejeição, não há como fugir da disrupção digital, sendo preciso estudar seus efeitos.

O mundo figital afeta todos os espaços da vida, inclusive a administração pública. Por isso, como dito, políticas de renda mínima são inevitáveis. O real será ressignificado. Governos e instituições também deverão adotar ações e estratégias visionárias capazes de enfrentar a disrupção digital e a figitalidade da vida. Repetir os sistemas populistas de mitigação da pobreza e geração de trabalho e renda materializados ao longo do último século não trará mudanças efetivas ao Brasil. Logo, urge que essa preocupação apareça de forma consistente nas candidaturas presentes, como Lula, Bolsonaro e Ciro, ou futuras, como Simone Tebet, Rodrigo Pacheco, Sérgio Moro ou Eduardo Leite, que disputará as prévias do PSDB com Jorge Dória.

O futuro governo brasileiro, seja qual for, deverá refundar suas práticas e montar as suas estratégias, pois a disrupção digital e o mundo figital não são tendências para o futuro, mas fatos do presente. Já não basta repisar modelos de desenvolvimento, trabalho e renda sepultados vivos pela disrupção digital. Ou entramos para valer no mundo figital ou seremos descartados como sociedade nacional, nos tornando verdadeiramente párias mundiais. O Brasil já não pode mais errar, pois o futuro é agora!

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Paulo Baía. Doutor em Ciências Sociais. Professor aposentado da UFRJ

Lier Pires Ferreira. PhD em Direito. Professor Titular do Ibmec e do CP2. Pesquisador do Lepdesp/Uerj

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