Arte, artistas, sofrimento

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Hoje, querido leitor ou leitora, queria escrever uma crônica completamente diferente. Antecipar, na verdade, um pedacinho de um livro que estou escrevendo e que trata pouco, quase nada dos meus temas habituais – nem de economia, nem de política, nem de Brasil. Pode ser? Espero que o leitor ou leitora concorde, e não pare de ler aqui. Não sei por que exatamente, mas faço questão da leitora, em especial. Sem excluir ninguém, evidentemente.

Desde os meus tempos de China, tenho feito anotações esparsas, na forma de sentenças, aforismos e crônicas. Pedaços, fragmentos ou estilhaços de um futuro livro. Acabei me fixando na palavra mais dramática – estilhaços. Queria chamar o livro de “Estilhaços do coração”. Mas uma das minhas primeiras e poucas leitoras não gostou do título. Achou a referência a “coração” apelativa, sentimental, novelesca. Outra amiga caiu na gargalhada quando soube do título... Não tive opção senão cortar, relutantemente, a palavra “coração”. A relutância tem as suas razões – razões do coração que “a própria razão desconhece”, como disse um grande filósofo francês que não tinha receio de lançar mão do coração, da palavra e do próprio! Bem sei que Pascal tem todos os direitos, mas enfim.... Travei, entretanto: como cortar tranquilamente o coração, se o lado afetivo é fundamental no meu livro em gestação – e mais importante do que o seu lado fragmentário? Contudo, não queria que o livro fosse parar nas seções de autoajuda ou literatura sentimental das livrarias! E cedi.

(Mas o leitor percebe, claro, que ressuscitei aqui o título original!).

Vou transcrever aqui algumas passagens de “Estilhaços” que dizem respeito quase sempre à arte, ao artista e ao sofrimento – ao sofrimento que é inseparável da beleza. Adianto que tratarei só de um tipo de arte e de um tipo de artista – do romantismo e do artista romântico, e não do artista iluminado ou iluminista. Em outras palavras, de Wagner, e não de Mozart. De Lohengrin, e não da Flauta Mágica. Vamos lá, então.

Sofrer, sofrer, sofrer – condição para escrever bem. Não queira ser artista, avisou Dostoievski – a menos que tenha extraordinária capacidade de suportar sofrimento.

Um sedutor. O artista – sedutor, fantasioso, volátil – será sempre perigoso para os outros. Na vida real, o comum dos mortais deve evitá-lo, sempre que possível.

Papel inestimável do artista para o comum dos mortais, e por isso estes ficam-lhe eternamente gratos – saber dizer, saber expressar o sofrimento, sofrimento que no homem comum vive em estado bruto. O artista, mais sensível, mais propenso a sofrer esse sofrimento comum a todos, encontra formas de elevá-lo, valorizá-lo e mostrar que ele tem ou pode ter algum sentido.

Portanto, regra de sabedoria prática – amar a arte, mas manter prudente distância do artista.

Amoralidade ou imoralidade do artista. O verdadeiro artista está além do bem e do mal, dizia Nietzsche (ou digo eu, em paráfrase a ele). Mas não vamos esquecer que o verdadeiro artista conquista pelo sofrimento o direito de transcender o bem e o mal.

Beleza e sofrimento. A beleza, quando é muita, ofusca, paralisa, inunda – faz sofrer. Quem não pensou ao ver uma linda mulher – “tão bonita que chega a doer”.

Imaginação versus vivência. Os que não são imaginativos precisam sempre vivenciar. E não há problema nisso. O que é a imaginação comparada à vivência?

Segunda natureza. A educação e a cultura, a segunda natureza, ofusca e quase oblitera a primeira. Existe, por exemplo, amor puro, em estado bruto, sem literatura? Madame Bovary seria impensável sem a literatura romântica que consumiu e a consumiu. Em estado bruto, amor é sexo puro e simples. Mas nem isso existe mais. A segunda natureza se intromete em tudo.

Don Juan – uma tipologia incompleta. Tipos de Don Juan, da vida real e imaginária. O Don Juan doente, compulsivo sexual. O Don Juan impotente – o tipo talvez mais paradoxal: ameaçado pela impotência, busca a variedade para manter-se estimulado, para lutar contra a sua frágil pulsão sexual. O Don Juan romântico, da Tondichtung de Richard Strauss, em busca sofrida e inútil da mulher perfeita. O Don Juan mozartiano, alegre, despreocupadamente vidrado em muitas mulheres – o Don Giovanni da ópera. O Don Juan prudente, que procura na variedade uma forma de se proteger contra o maior risco de decepção amorosa quando se depende de mulher só. O Don Juan aflito, que busca na aceitação de um grande número de mulheres uma compensação pela falta de amor da parte da mãe, a mulher original – caso do personagem principal de “O Homem que amava as Mulheres”, do filme e do livro de François Truffaut.

Não cabe ao artista raciocinar. O artista deve mostrar apenas e explicar o mínimo possível. A explicação falseia, restringe. Erro de Truffaut, portanto, ao oferecer no prefácio do livro que decorreu do filme a chave para entender o personagem central do Homem que amava as mulheres: ele não seria quem foi, explica, um homem irremediavelmente fascinado por tantas mulheres, se tivesse tido mais sucesso com a própria mãe.

Regra artística sem arte. Regra número 1 do artista: fugir dos clichés como o diabo foge da cruz – formulação, como se vê, em que a regra viola a si mesma. Uma regra artística enunciada sem arte é pior do que nada. Por esse e muitos outros motivos, devemos deixar aos próprios artistas o privilégio de escrever e falar sobre arte.

Comparação entre Kant e Stendhal em Nietzsche. Nietzsche, que era, também, um artista, discutiu a ideia de beleza na sua Genealogia da Moral. O que é a beleza? perguntou ele. “Contemplação desinteressada”, como propôs Kant, o não artista par excellence? Nunca. Antes: “Promessa de felicidade”, como escreveu Stendhal, que falava com vivência de causa. Contraste elucidativo de opiniões! A quem confiar a beleza? Ao professor que classifica e organiza? Ou ao artista que vive e sofre a beleza?

Falar e outras formas de se expressar. A verbalização é uma forma da comunicação limitada, mais claramente dominante nos povos “civilizados”, nos povos em que a razão prevalece. Acostumados, treinados a pensar logicamente, a respeitar os fatos, perdem o acesso a outras formas de interação. Ficam como que escravizados pela palavra. Nos povos “atrasados”, a verbalização é desprezada, serve em geral de última instância. Antes dela, vem a comunicação corporal, pelo olhar, pela postura, pelos gestos, pela energia. Como última ou primeira instância, a verbalização oferece uma clareza ilusória, não raro mentirosa, pois as palavras, pretensamente unívocas, também guardam suas ambiguidades e mistérios.

Encontrar a própria voz. O grande momento, a revelação da vida de um escritor é quando ele encontra a própria voz. O que pressupõe, claro, que ele tenha chegado a ponto de escrever como quem fala, simulando a comunicação verbal.

Não existe propriamente naturalidade artística – toda arte é simulada, falseada, como já confessava, sem disfarces, Fernando Pessoa (“O poeta é um fingidor/Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”). E como alertava também Platão, que dizia não gostar de poetas “porque eles mentem muito”. E o curioso é que ele mesmo era um poeta, um poeta em prosa, mas poeta mesmo assim.

Prosa, poesia. A prosa tem que ser poética, não prosaica. Platônica, não aristotélica.

Instrumentos de sedução e encantamento. As palavras! Saber dizer, saber escrever! Como tudo, é prática, prática e... mais prática. Mas a base principal de tudo é a leitura. A leitura, mais do que a escuta, ensina melhor a escrever e mesmo a falar – e a escrever como quem fala, com a naturalidade sedutora e simulada de quem simplesmente conversa.

Sensatez e audácia como qualidades do espírito científico. Para defender a ciência dos seus inimigos, é preciso sensatez. Para fazê-la avançar, insensatez, audácia.

O cientista inovador é mais artista do que se pensa.

Perplexidade do artista romântico. Ser artista não é opção, mas destino, maldição. Meu deus, o artista sempre se pergunta, porque tanto sofrimento para chegar a um pouco de beleza!

O destino cobra caro cada pingo de beleza.

Coração. Em inglês, há uma bela expressão popular romântica: “My heart missed a beat” – meu coração pulou/perdeu uma batida. Como em todas as línguas (as ocidentais, pelo menos), o coração – heart, Herz, coeur, cuore, corazón – é visto metaforicamente como a sede dos afetos, em especial os amorosos. E o bater do coração, como símbolo simples, intuitivo, da manifestação desses afetos.

Vida real, vida imaginada. A vida real, vivida, superior à vida imaginada, recriada? Duvidoso. Por um lado, a arte pode mostrar uma perfeição arrebatadora. Thomas Mann dizia que nada na vida real superava o impacto para ele de Lohengrin, em especial do prelúdio e do primeiro ato, que ele considerava “o ápice do romantismo”. Por outro lado, imaginar, apenas imaginar, não satisfaz plenamente. E a realidade não é mais criativa do que a arte? Tanto que o artista vive vampirizando, para seus propósitos criativos, a própria vida ou a dos outros.

A vida e o resto. Tudo que é essencial para a vida, frágil vida, sempre ameaçada, sempre vulnerável, foge ao alcance da razão, da razão pura e desassistida. O essencial é inacessível a ela, mas não ao coração. Já dizia Pascal, já ecoava Unamuno. Assim como também Pessoa, de modo diferente, em “Ilhas Afortunadas”: “Que voz vem no som das ondas/ Que não é a voz do mar?/É a voz de alguém que nos fala,/Mas que, se escutarmos, cala,/Por ter havido escutar./ É só, se meio dormindo,/ Sem sabe de ouvir ouvimos,/Que ela nos diz a esperança/ A que, como uma criança/Dormente, a dormir sorrimos.”

Pascal versus Descartes. Em Pascal, o mais impressionante é a sua luta comovente com a razão, com a inteligência – em defesa de uma fé frágil, marcada por hesitações, por dúvidas dilacerantes. A dúvida que vale ouro – a de Pascal, não a de Descartes. Descartes, como notou Nietzsche, nem sabia duvidar direito. A sua dúvida metódica é uma piada, não resiste nem ao exame friamente racional.

O coração não precisa de defensores. Tão fácil desfazer do coração, desmontar as suas pretensões fantasiosas, denunciar os seus exageros e ridículos. Mas não adianta. O coração sobrevive a todos os assaltos e a todas as tempestades. Pela simples razão de que ele é o que temos de mais interior, de mais fundo em nós. Sobrevive por ser, ao fim e ao cabo, nada mais nada menos do que o que há de mais básico, mais enraizado dentro da alma. Raciocínios, argumentos, fatos acabam de nada valendo contra suas seduções, seus artifícios, seus truques e seus fascínios incontáveis.
Assim, Dostoievski declarou com espalhafato: “Se me provarem que Cristo está contra a verdade, fico com Cristo e contra a verdade”.

Razões do coração. Nos embates com o coração, a razão machuca, abala, mas não consegue nunca aniquilar. A guerra continua sempre, sem vencedores e sem vencidos.



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Era só isso, querido leitor ou leitora, que eu pretendia revelar hoje. Se tivesse uma noção mais apurada do ridículo, não teria escrito essa crônica sui generis. Estou com o coração na mão, confesso. Fiz o meu melhor. Mas o meu melhor é suficiente? Deixo a pergunta nas suas mãos carinhosas, leitor ou leitora.

O que me faz lembrar de uma cena maravilhosa do romance Tess of the D’Urbervilles, de Thomas Hardy, lindamente recuperada por Roman Polanski, no filme Tess, com Nastassja Kinski no papel principal. Recapitulo rapidamente. Tess recebe proposta de casamento, mas tem um segredo terrível que pode arruinar tudo. Incapaz de falar a respeito, escreve uma carta a ele, contando tudo – carta que termina dilacerada, assim: “I pray, I hope, I love you” (“Rezo, espero, te amo”).

Toda confissão, inclusive esta que ora concluo, é sempre acompanhada de uma prece, da esperança de acolhida e, em última análise, de amor.

 

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Uma versão resumida desta crônica foi publicada na revista “Carta Capital” em 29 de outubro de 2021.

O autor é titular da cátedra Celso Furtado do Colégio de Altos Estudos da UFRJ. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017 e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Lançou no final de 2019, pela editora LeYa, o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata. A segunda edição, atualizada e ampliada, começou a circular em março de 2021.

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