Brisa, vento e ventania

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Uma brisa de racionalidade sopra no Brasil. Cheguei a me lembrar de um dos versos da bela canção “Blowing in the wind” de Bob Dylan - cito de memória - “quantas mortes mais serão necessárias até que o homem saiba que muitos morreram?". A música é de 1963 e muito provavelmente Dylan estava endereçando a canção ao presidente dos Estados Unidos nos tempos da guerra do Vietnã. A resposta, diz Dylan, é soprada pelo vento. Óbvia a relação entre a Pandemia e nossos tempos de hoje.

O relatório da CPI da Pandemia é a brisa de racionalidade a não mais deixar dúvidas sobre os crimes de responsabilidade, de desleixo e incúria que mataram mais de seiscentos mil brasileiros numa guerra biológica para a qual nos mostramos infinitamente irresponsáveis. Fosse guerra provocada por um Estado beligerante, estaríamos hoje sob a invasão de um exército inimigo e talvez para sempre num Brasil espoliado e ocupado.

Deve servir de alento tenha sido a determinação de um punhado de senadores, em número menor de um pelotão de infantaria, quem tenha desnudado a ignomínia, tenha enfrentado a maledicência e as pressões mais rasteiras para enfim nos presentear com um relatório solidamente consubstanciado, juridicamente inatacável e elaborado à vista de todos por meses de exibição em televisão comprometida com a verdade. O Supremo Tribunal Federal garantiu o devido processo legal e a defesa de testemunhas com o instituto do “habeas-corpus”. Quão longe estamos dos mecanismos subterrâneos, até hoje não devidamente explicados, no autoritário movimento da “Lava-Jato“. A Democracia renasce dos ventos da associação bastarda entre a ameaça do golpismo e a ignorância mais abjeta a que se permitiu um Ministério da Saúde institucionalmente criado para o bem.

Não por coincidência, mas porque, ao chegar ao diagnóstico de velhacarias cometidas, o Superior Tribunal Eleitoral, proclama alto e bom som que a justiça é cega mas não tola. Assim como o povo não é pascácio, nem palhaço, nem palerma, nem patife. E tudo se esfuma no vento que enegrece o país enlutado, envergonhado, mas finalmente esperançoso.

Porque é só depois que se conhece a tibieza dos grilhões, a irracionalidade da sujeição escravocrata, o sacrilégio do abuso indevido do nome de Deus que se pode reafirmar o exercício fundamental do Direito inscrito na Constituição Federal, impedir sua castração pela mão assassina do autocrata vestido do manto maltrapilho de profeta do apocalipse a ameaçar seu povo incauto com pragas maiores do que as sete do Egito.

E desta união entre a política representativa dos direitos democráticos do povo com o judiciário, implacável defensor dos direitos fundamentais, há de renascer não uma terceira ou quarta via, como desvio da única via, mas a reafirmação da Constituição, sábia em sua defesa não só da economia de mercado, mas também na condenação de seu abuso por forças interessadas em consagrar o suposto privilégio de minorias sobre o bem estar de todos, numa ruptura do tecido social, hoje já bastante esgarçado.

Os ventos que aqui sopram - e continuarão a soprar até que o povo se reencontre na tarefa harmônica de construir seu destino - já se tornaram ventanias perigosas nas mais inexpugnáveis democracias, como estamos vendo na maior delas, infelizmente ameaçada por um bufão, financiado sabe-se lá por que forças privilegiadas, a estimular um cartel de países autoritários subordinado a uma máfia servil ao enriquecimento espoliativo, forma vicária do novo colonialismo predatório.

Pois é predatória a política que ao mesmo tempo defende a privatização da Petrobras - empresa que apresenta trinta e pouco bilhões de reais de lucro - e ao mesmo tempo tunga precatórios com a desculpa de ajudar os desvalidos, mas de olho gordo na teta leitosa a escoar para despesas sequer sujeitas ao escrutínio público. Predatória, porque o maior acionário da Petrobras, o Estado brasileiro, poderia dar melhor uso a este lucro em investimentos públicos. Ao contrário, se aumenta a inflação, se força a alta dos juros em benefício exclusivo do abuso econômico rentista.

Predatório, porque há os que defendem a privatização do SUS e propõem a criação de “vales" - codinome “vouchers" - para o tratamento médico em empresas privadas. São mentecaptos que sequer reconhecem a importância da vacinação em massa pelo SUS, sem o que talvez estivéssemos vendo caixas de vacinas a perder validade como vimos acontecer com respiradores e filtros hospitalares. Sem falar no exercício da medicina mercantilista, em que a opção de viver ou não, é determinada pela profundidade dos bolsos dos enfermos.

Predatório, porque estamos desestimulando o ensino público de qualidade e valorizando o aprendizado de técnicas de vendas em detrimento de uma cultura humanística a permitir a plena expansão educacional de nossos jovens.

Fazemos dos credos religiosos instrumentos de ideologias políticas, esquecendo dos primados de Cesar e de Deus, confundindo ambos, e, ainda que involuntariamente, introduzindo em nosso país hostilidade a credos de origem africana ou de matriz muçulmana, ambas profundamente integradas na formação de nosso mosaico étnico.

Nossa economia se arrasta asquerosa aos pés de ideologias já sabidamente responsáveis por turbulências mundiais do sistema financeiro internacional alimentadas pela cupidez de uns poucos em detrimento das poupanças de muitos. Desaprendemos a conjugar o verbo do desenvolvimento brasileiro e nos engatamos a reboque do trem da alegria da ciranda financeira. Caminhamos patrioticamente para o pantanal dos vigaristas internacionais.

Eu desconfio, como diria Dolores Duran, que este (des)caso está na hora de acabar. A coragem dos senadores da CPI deve ser complementada por nossa determinação em fazer do bicentenário de nossa Independência política, em 2022, o ano em que o Brasil finalmente optou por sua libertação. E vencerá sua maior guerra, caminhando contra o vento. No tempo certo.

*Embaixador aposentado

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