Trumpismo e suas cepas

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Na esteira da saída das tropas americanas do Afeganistão, a popularidade de Biden nas pesquisas caiu de forma tão chocante quanto os corpos de afegãs desgarrados das fuselagens dos aviões da US Air Force. Na mesma imagem, duas fotos trágicas do século XX transportadas para os nossos dias: os corpos a cair em desespero das torres gêmeas e a retirada atabalhoada do Vietnam. Ambas a sublinhar graficamente a humilhação dos Estados Unidos da América e de seu poderio militar.

Biden pagou o preço de uma negociação mal conduzida por Trump com as autoridades afegãs e com o Taliban. Bomba-relógio armada pelo ex-presidente, embrulhada com fita de presente para seu sucessor. Não foi a primeira e não será a última.

Faz poucos dias, jornais como o Washington Post e revistas como a Atlantic publicaram longos artigos sobre a possível armação golpista de Trump para voltar ao poder. O texto do Washington Post, escrito por Robert Kagan, foi objeto de análise por Martin Wolf do Financial Times, traduzido no Jornal o Valor. Guga Chacra fez em sua coluna do O Globo breves comentários sobre os artigos sem deles perder a essência e o espírito.

Martin Wolf, editor respeitado do Financial Times, não costuma perder tempo com modismos jornalísticos e goza de merecido respeito como um dos melhores colunistas conservadores de língua inglesa. Independentemente de sua visão pessoal, Martin Wolf retrata os fatos que comenta de forma equilibrada. Não é nem radical nem contaminado por ideologias rebarbativas.

Animado, ou melhor, intrigado por seu artigo, fui aos textos originais no Atlantic e no Washington Post e tive a sensação de estar diante de uma introdução a um novo livro de John Le Carré ou de Frederick Forsight, tal a teia de aranha caranguejeira a se desenhar diante de meus olhos. Lidos, fiquei a olhar o espetacular céu azul do Rio de Janeiro, em que o Corcovado ressaltava como símbolo de tranquilidade quase budista. E me lembrei da frase de um inesperado filósofo brasileiro a correr os periódicos brasileiros, não por ser original, mas por exprimir de forma sibilina um pensamento sem arranhar o lombo da gramática portuguesa: “o que está mal sempre pode piorar”. Touché.

Fiquei a indagar-me se estava diante de uma frase circunstancial ou se me defrontava com palavra de ordem de novos Templários do autoritarismo ou da ignóbil iliberal Democracia, pois na verdade o que acabara de ler me havia conduzido aos círculos do Inferno.

A leitora gentil que me aturou até aqui terá que satisfazer-se com um breve resumo do que os analistas americanos escreveram, pois falta engenho a este escriba e espaço neste jornal. Mas, vejamos: em síntese os analistas informam que o Partido Republicano de tantas e velhas batalhas estaria submetido ao tacão de Trump, tornado coronelão a conduzir com mão de ferro as aspirações do partido e de seus membros. À exceção de Mitt Romney e uns poucos mais, uma eventual condenação de Trump pelo Congresso americano seria bloqueada por uma maioria de fazer inveja ao nosso Centrão tupiniquim.

Trump estaria hoje engajado na tarefa de reformar a legislação eleitoral americana, que, ao contrário da nossa, varia de Estado a Estado, é desprovida de um Tribunal Eleitoral como o nosso e os casos duvidosos no sistema eleitoral são resolvidos pelas cortes estaduais e, quando envolvem a interpretação da Constituição, pela Suprema Corte de composição conservadora. Trump fez Ministro do Supremo um conservador renitente e nomeou centenas de juízes para as cortes estaduais. No processo, o prato da balança pendeu à direita. Mais de 9 Estados já foram reciclados.

As reformas obedecem duas vertentes: dificultar ao máximo o direito de votar por meio de manobras burocráticas e tornar cada vez mais contencioso o processo de contagem de votos. Trump pretende criar "enclaves" republicanos estrategicamente espalhados pelo território. Obviamente, os enclaves republicanos tenderiam a repovoar o mapa eleitoral dos Estados Unidos ainda que a risco de se chegar ao separatismo entre brancos e pretos e aprofundar fissuras no tecido social americano, como vimos na invasão do Capitólio.

A par dessas manobras, Trump se dedicaria de agora até 2022 - ano das eleições para o Congresso Americano - a minar apoio às politicas econômicas e sociais de Biden, contrárias ao reinado neoliberal do período 1970 até hoje. Para tanto, Trump jogará não só com sua ascendência sobre o Partido Republicano, mas também com o apoio financeiro dos grandes grupos econômicos, refratários a perder quaisquer jujubas de que desfrutem.

Caso Trump consiga maioria da Câmara dos Deputados mas eleições de 2022, os dois anos finais de Biden serão uma via-crucis. Nesses dias, Biden vive uma batalha com o Congresso na tentativa de fazer passar seu projeto de reconstrução econômica. A pergunta que permanece no ar é saber por que o eleitorado americano desejaria Trump de volta. Aqui as opinões se dividem, mas há um denominador comum.

Trump com seu negacionismo primitivo e sua visão de um passado americano fantasioso, sobretudo para a classe média americana, teria com o mecanismo das fake news e a tecnologia das plataformas digitais conseguido convencer parte substancial da sociedade americana de que apenas ele, a exemplo de Erdogan, Putin, Orkan e outros menos votados, poderia reencontrar o Santo Graal da sociedade americana. E desta forma, os Estados Unidos se transformariam num Estado totalitário ou semitotalitário de cunho húngaro.

À primeira vista, achei um roteiro inviável. Mas, se nos perguntarmos a quem beneficia um Estados Unidos da América com as características descritas acima, começaremos a ver que o cenário de fantasioso passa a sombrio.

Forçoso reconhecer que a crise financeira de 2008, em grande parte decorrente dos mandamentos neoliberais de desregulação, redução de impostos para o grande capital, constrangimentos das politicas públicas de saúde e educação está na raiz de um capitalismo selvagem cuja dentição vampiresca se mostrou universalmente com a Praga do Covid. O aprofundamento dos desníveis sociais, o estancamento do crescimento econômico impõem uma reviravolta de paradigma das sociedades modernas.

Neste cenário, a intolerância do capitalismo selvagem em abrir mão de uma acumulação predatória é uma posição míope diante dos desafios que se abrem, inclusive para o Brasil.

Aqui também temos as nossas cepas trumpistas, talvez até mais letais quando nelas se agregam não só a miséria crescente da população e a deterioração do bem-estar social, mas também quando os movimentos políticos progressistas são intencionalmente identificados com espantalhos do passado, remaquiados com objetivos golpistas.

Assim 2022 não será apenas um ano decisivo para os Estados Unidos. E será grave erro considerar que estamos longe dessas turbulências e dos tumultos delas decorrentes. Mais do que nunca é tempo de nos decidirmos sobre o tipo de Brasil que queremos começar a construir no duocentésimo aniversário de nossa independência. Continuarei.

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