Volta ao futuro

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Numa semana em que a economia brasileira mostrou as cores verde náusea e amarelo pastel de seu retumbante fracasso, depois de quase três anos da onipotência da necropolítica Ypiranga, o sentimento de desânimo instalou-se até mesmo nos mais empedernidos corações neoliberais.

Desidratada do ufanismo utópico do maestro, a orquestra econômica desafina, a bolsa de valores se transforma numa montanha russa cavalgada por um dólar anárquico a chicotear os juros presentes e futuros da fuzarca geral em que se transformou a bolsonarolandia imprevisível e temível. O amanhã pertence aos deuses do azar, tantas, tão frequentes são as oscilações de rumo, ora em direção ao golpe de Estado ora em projetos de reformas do sistema eleitoral a toque de caixa comprometidas com minorias e descomprometidas com a maioria do povo brasileiro.

O cidadão brasileiro acorda com a ameaça da paralisação de caminhoneiros, almoça seu raquítico prato de feijão com o sentimento de culpa a ruminar um ódio indefinido por ainda não ter comprado um fuzil de guerra e vai dormir em meio a sonhos e pesadelos de que a guerra (contra quem?) vai finalmente estourar.

Faz quase três anos que vivemos neste Brasil sitiado. Em que se nos prenuncia uma guerra fratricida como fórmula única de construirmos um país supostamente centrado na harmonia e no respeito às leis. E tudo parece surgir de uma invisível mas onipresente ameaça a nossas famílias, a nossas religiões, ao futuro de nossos descendentes. Ajudada pela Peste ainda imbatível, o cenário político a se desfolhar diante de nós provoca distúrbios psicossomáticos como se efetivamente estivéssemos em guerra. Uma guerra a ser travada entre irmãos de sangue. Esta, a ignomínia maior. Quem deveria nos levar ao caminho do trabalho construtivo comum, nos assinala por gestos e palavras que só a destruição nos levará à redenção. E o mecanismo tortuoso afirma hoje o que nega amanhã e confunde a cada hora, de forma leviana e abjeta, os que dele se aproximam a buscar esclarecimento ou a lembrar-lhe o juramento cívico.

Pouco a pouco, mas ainda de forma tímida e desorganizada, começamos a acordar para os riscos que corremos e que por nossa tibieza poderão levar este país a uma situação limite impensável, capaz de nos esfacelar como nação e de nos tornar errantes em nossa própria terra. Mais do que nunca impõe-se a solidariedade de todos como únicos guardiães de nossa liberdade e de nossa Democracia.

Ainda nesta segunda feira passada tivemos o especial privilégio de escutarmos e vermos no programa "Roda Viva" entrevista com um de nossos maiores juristas vivos, Ayres de Brito recentemente aposentado compulsoriamente de suas funções no Supremo Tribunal Federal. Ao longo do programa, Ayres de Brito, em português culto, infinitamente distante da preciosidade requentada de um juridiquês pomposo, afastado da realidade cotidiana, nos deu uma bela aula sobre a Constituição de 1988.

Ayres de Brito nos fez ver quão longe estamos dos princípios de nossa Constituição. Mostra-nos de forma didática como as ameaças explícitas ou implícitas endereçadas à ordem e às instituições são absolutamente contrárias à Democracia e como tal devem ser combatidas, repelidas. Não consigo retratar a clareza e a inteligência do verbo de Ayres de Brito, razão pela qual recomendo assistir o programa, disponível nas plataformas digitais.

Estamos vivendo uma farsa histórica. Depoimento como o de Ayres de Brito foi acompanhado ou precedido por outros como o do presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, e do presidente do Superior Tribunal Eleitoral, Luís Roberto Barroso, onde não há dúvida a remanescer na inteligência e no espírito dos homens de bem sobre as artimanhas e maquinações em curso por forças do reacionarismo mais óbvio deste século.

Um olhar descompromissado sobre o que está a ocorrer no mundo, evidencia o projeto de atraso econômico, político e cultural em curso no Brasil. Seguimos durante dois anos, de forma quase ingênua, mas certamente não involuntária, os equívocos patéticos de Trump. Hoje, mais do que indiferentes, somos quase hostis à política econômica de Biden, determinada a resgatar os efeitos nocivos de um neoliberalismo doentio sobre a classe média americana. Redimir anos de uma política de desregulamentação responsável por abusos do poder econômico e por estimular o ressurgimento de mega-empresas instaladas em monopólios ou cartéis, colocados fora da lei desde os primórdios do século XX.

Biden e sua equipe econômica restauram aos poucos o compromisso do capitalismo com o Estado de Direito e retomam mecanismos abandonados desde Reagan para dar combate aos evidentes desajustes sociais na sociedade americana. Não será por mera coincidência que o retorno do ódio racial e de uma supremacia branca tenha sido a principal herança do trumpismo, tanto elogiado aqui no Brasil por pedantes e ignorantes em idêntica medida.

Hoje, a sociedade brasileira, o civismo brasileiro não podem esconder debaixo do tapete os efeitos perniciosos de uma politica econômica que abstrai de seu horizonte a miséria de parte substancial de nosso povo. Economistas de diferentes tendências doutrinárias felizmente parecem despertar para a importância da variável social nas equações macroeconômicas. Lamentável que parcela substancial de nossa classe empresarial ainda não tenha compreendido que a melhor reforma tributária será aquela que reduzirá a termos menos indecentes a carga fiscal sobre os pobres em anômalo benefício dos ricos.
A verdadeira questão que se coloca para nós todos, principalmente aqueles que tiveram o benefício da escola e da nutrição, direitos fundamentais não universalmente distribuídos no Brasil, é saber se continuaremos a nos iludir sobre a farsa de que a pobreza seria um destino e não fruto de opressão histórica, passível de correção.

De nossa resposta, se tornará insustentável compactuar com a mentira. E cada vez mais fácil trabalhar para o pão nosso de cada dia.

*Embaixador aposentado