Cinco anos do golpe contra a presidenta

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A data foi nesta semana e não há motivo para comemoração. Muito pelo contrário, como atestam os números da pandemia e as denúncias contra Bolsonaro e seus filhos. Também não há mais como negar que o fascismo alastrado pelo Brasil é fruto podre do golpe.

Golpe esse que, vamos recordar, começou como uma semente, quando o candidato derrotado à presidência da República resolveu bradar de forma histérica que não reconhecia a reeleição da então presidenta Dilma Rousseff. Uma mulher, reeleita por uma legenda com o nome e a história ligados aos trabalhadores era demais para o representante da elite econômica e financeira do país. Mas, como a vitória foi legítima, a presidenta assumiu e seguiu rumo ao segundo mandato.

Em um retrospecto do cenário de terror que cobre hoje o país, o clima de ódio começou a dar sinais durante a abertura da Copa do Mundo de 2014, quando Dilma Rousseff foi xingada de forma baixa e agressiva. A partir daí, a debilidade só aumentou e o nível foi ladeira abaixo. Quem não se lembra do adesivo pornográfico com a imagem da presidenta Dilma, visto em alguns carros, em “protesto contra o aumento da gasolina”? Gasolina que, aliás, custava cerca de R$ 3,30 o litro. Não é preciso comentar o preço da gasolina hoje...

À época, foi necessário que a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, encaminhasse denúncia ao Ministério Público Federal, à Advocacia-Geral da União e ao Ministério da Justiça solicitando providências contra a produção, comercialização e divulgação do tal adesivo. O argumento era de que a peça, ofensiva, lesava os direitos e garantias das mulheres. “(O material) fere a Constituição, ao desrespeitar a dignidade de uma cidadã brasileira e da instituição que ela representa, para a qual foi eleita e reeleita democraticamente”, escreveu em nota a ministra.

No mesmo texto, ela lembrou que “a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República tem como principal objetivo promover a igualdade entre homens e mulheres e combater todas as formas de preconceito e discriminação herdadas de uma sociedade patriarcal e excludente”. Bate uma nostalgia gigante ler novamente uma nota destas e saber que se tratava de um texto oficial, escrito por uma pessoa integrante do então governo federal. Hoje, temos um governo – ou uma milícia – que elevou o litro da gasolina ao dobro do que era na época da presidenta Dilma e que tem aliados que exaltam o ex-marido criminoso da farmacêutica Maria da Penha, cuja luta deu nome à lei que alterou o Código Penal brasileiro em defesa das mulheres.

Tempos de legitimidade e cidadania contra tempos de violência e obscurantismo. Tempos que começaram a mudar quando um processo de impeachment sem crime de responsabilidade – conduzido por um parlamentar que pouco tempo depois teria o mandato cassado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, e seria preso em outubro daquele mesmo ano – derrubou a primeira mulher eleita e reeleita democraticamente para a presidência da República.

O que veio em seguida todos sabemos. Mas é sempre bom lembrar o que aconteceu imediatamente após a saída de Dilma Rousseff: a aprovação da Emenda Constitucional 95, do Teto dos Gastos Públicos, que congelou recursos para a saúde, educação, habitação, cultura, ciência e tecnologia, entre outros, e deixou sem limites as despesas financeiras. Seguida pelo desmonte da Petrobras, para que 75% dos royalties do pré-sal não fossem investidos em educação, ciência e tecnologia, mas voltassem às mãos das multinacionais e dos especuladores financeiros. Pelos ataques ao SUS, pelo final das políticas públicas voltadas para as mulheres, jovens e classes trabalhadoras. E, mais recentemente, pelas 580 mil mortes provocadas pela pandemia em um governo genocida.

O lado bom deste enredo de perdas é que Dilma Rousseff segue forte, atuante e avante. Representando a principal característica que tem marcado as mulheres progressistas na história não só do Brasil, mas do mundo: a resistência. O Brasil despenca abismo abaixo há cinco anos. Enquanto isso, Dilma sobe confiante rumo à reviravolta.

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Lídice Leão é jornalista, pesquisadora e mestranda em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo.