Chega de aviltar o patriotismo

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Durante uma oitiva da CPI da Covid, na última quinta-feira (26), perguntei ao depoente - suspeito de participar do esquema corrupto na compra de vacinas - se ele era integrante do “bloco verde-amarelista” que serve de apoio ao desgoverno Bolsonaro.

O inquirido escolheu não responder à pergunta, fazendo uso do direito ao silêncio, para não se incriminar.

Fossem outros os tempos, seria inusitado que alguém considerasse incriminatória sua condição de apoiador de um governo estabelecido e em pleno controle dos aparatos de força - não esqueçamos nunca que os perseguidos, torturados e assassinados por confrontarem a ditadura militar tiveram sempre a coragem de explicitar seu lado, mesmo com a vida em jogo.

Mas esse país virado do avesso tem dessas surpresas: os usuários de camisas da CBF, participantes de manifestações raivosas e trombeteadores de um "Brasil acima de tudo" começam a temer serem incriminados por seu abraço à insanidade bolsonarista.

É compreensível. Em algum momento, será necessário prestar contas pelas quase 580 mil mortes da pandemia, pelo desmantelo econômico, pela volta da fome, da inflação e do desespero.

Entre os que apoiaram a ascensão de Bolsonaro, é possível encontrar muitos sinceramente arrependidos. Mas, no núcleo duro dos skinheads verde e amarelos, a debandada e o silêncio são muito mais uma esquiva das cobranças do que uma autocrítica.

O fato é que encolhe a olhos vistos o contingente de papagaios interesseiros e mal-intencionados com coragem de vir a público bater no peito e jurar amor eterno ao projeto mitômano que os colocou em marcha para destruir o Brasil.

É uma horda minguante, que jamais terá a dignidade, a brasilidade e a beleza dos indígenas que esta semana tomaram a Praça dos Três Poderes, em Brasília, para reclamar seu direito a suas terras ancestrais e reconectar corações e mentes com a ideia de um país diverso, amoroso e inclusivo.

Tenho engulhos, nojo mesmo - e sei que não estou sozinho - com o uso calhorda que o bolsonarismo faz do falso patriotismo para acobertar o oposto. Dos patifes que pretendem induzir nosso povo a emprestar sua bandeira para cobrir tanta infâmia e covardia, como já definiu o poeta.

Nossa bandeira não pode servir de biombo para a ação de medíocres e picaretas que perpetram falcatruas na compra de vacinas, que praticam corrupção, engendram embustes na recomendação de medicamentos inúteis, se associam à aprovação de reformas que anulam direitos trabalhistas, previdenciários e assistenciais.

Como quis Castro Alves, não podemos permitir que o pendão verde e amarelo tremule sobre o assassinato da juventude negra, sobre o feminicídio, sobre a perseguição à população LGBT, sobre o massacre físico e cultural dos povos indígenas.

Nossas cores nacionais não podem mais servir de brasão para a torra do patrimônio público e para a devastação de nossas riquezas naturais.

Quanto mais se investiga o governo Bolsonaro - na CPI da Covid, nos inquéritos sobre “fake news” e ataques à democracia, na observação das medidas desumanas tomadas contra o povo - mais se revela o retrato horrível de um país que não queremos.

Chega de aviltar o patriotismo. Essa gente nefasta não fala em nome do Brasil.

*Senador (PT-RN) e líder da Minoria no Senado.