Desenvolvimento sustentável? O que desejamos sustentar?

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O mês de julho de 2021 registrou, apenas na Amazônia brasileira, 1.417 km² de desmatamento, segundo medições do Deter/Inpe. A área é superior ao espaço ocupado pela maioria das metrópoles nacionais. O número expressivo, somado aos insuficientes recursos destinados para o combate à devastação das florestas, nos leva a acreditar num futuro pouco animador para o meio ambiente.

São 1.417 km², área equivalente a pouco mais de 130 mil campos de futebol profissional. Se sairmos de carro do Rio de Janeiro em direção a Campo Grande, rodaremos 1.410 km. Imagine essa estrada com 1 km de largura. É isso. Por mês, e apenas na Amazônia brasileira. Haja rio para transportar tanta madeira ilegal. Haja gado para tanto pasto, soja para tanto gado. Haja dinheiro para tão poucos bolsos.

Já passou da hora de repensar a relação dos seres humanos com a natureza. Sustentabilidade? Nada contra. Evitar banhos demorados, reciclar o lixo caseiro, optar por meios de transporte menos poluentes e consumir produtos com embalagens biodegradáveis certamente minimizam o prejuízo de ações humanas à biosfera.

Mas o mundo, hoje, tem aproximadamente 7.8 bilhões de habitantes. Em 2050, segundo projeções da ONU, o planeta abrigará mais 2 bilhões de pessoas que tomarão mais banhos e, portanto, usarão mais água e sabonetes. Haverá mais gente circulando, consumindo e, a se manter o modo de vida urbano, a degradação da natureza tende a aumentar.

Sustentabilidade, ou desenvolvimento sustentável? O que desejamos sustentar? Em 1987, a Comissão Brundtland, ligada à ONU, refere-se ao conceito de desenvolvimento sustentável como, na sua essência, “um processo de mudança no qual a exploração dos recursos, o direcionamento dos investimentos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e a mudança institucional estão em harmonia e reforçam o atual e futuro potencial para satisfazer as aspirações e necessidades humanas”. Exploração de recursos, direcionamento de investimentos, satisfazer as aspirações e necessidades humanas: o planeta nada mais é do que uma fonte de recursos para aplacar vontades de seres que se acham donos de tudo.

Em seu livro “A vida não é útil” (Companhia das Letras, 2020), o pensador Ailton Krenak desconfia da ideia de uma humanidade predestinada. “Nenhum outro animal pensa isso”, escreve. De certo, qualquer leve indigestão do universo pode erradicar em instantes o mais grandioso pensamento que nossa civilização construiu. Basta um cometa errático romper o escudo atmosférico. E, no entanto, continuamos a destruir outros seres vivos, milhares de quilômetros quadrados por mês, como a justificar nossa existência superior ao eliminar outros traços de vida na Terra. A essa destruição, chamamos de exploração de recursos. Sustentável?

Quando recebeu o Troféu Juca Pato em 2020, Krenak propôs, em seu discurso, que experimentássemos abraçar uma árvore. Creio que, hoje em dia, parte da gente acharia essa ideia desprovida de sentido. Essas pessoas, condicionadas por um raciocínio utilitarista, talvez preferissem abraçar um poste de concreto. E beijá-lo. Talvez o ser de cimento e ferro lhes devolva mais afeto do que os semelhantes nos seus arredores.

Em “A vida não é útil”, o autor relata o entendimento que alguns povos têm de “que nossos corpos estão relacionados com tudo o que é vida, que os ciclos da Terra também são os ciclos dos nossos corpos”. Nas grandes cidades, onde o contato com o meio ambiente se limita ao ar poluído que respiramos e, nos períodos de inverno, ao vento gelado que tira a vida de milhares, a percepção dos movimentos desta natureza fica comprometida. Cercados por edifícios, isolados da terra por camadas de asfalto e solados de borracha, a perspectiva de um mundo orgânico se resume a um copo de suco de laranja, à noite, guardado na geladeira em cujo rótulo de plástico se lê “sem aditivos artificiais”. De natural, só nossa imensa capacidade de se iludir.

Para sonhar com um mundo melhor, talvez seja necessário acordarmos. Esse o primeiro passo para despertar do pesadelo que nos prende à crença de sermos os mais importantes habitantes do universo.

Publicitário, escritor e vice-presidente da União Brasileira de Escritores (UBE-SP). Autor do romance “Através”.