A Medicina Perene

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Em tempos de mudanças velozes e constantes sobre o que se sabe a respeito de fisiologia, farmacologia, microbiologia, genética, imunologia, radiologia, cirurgia e tantas outras áreas que envolvem a arte médica, manter-se atualizado é tarefa sobre humana. Estima-se que metade do conhecimento médico associado ao tratamento de doenças se torne obsoleto em até quatro anos. Muito do que aprendermos no primeiro ano da faculdade de Medicina já estará caduco antes da conclusão do curso.

Mesmo a Ética Médica está sujeita, em tempos hodiernos, a chacoalhes mais frequentes. Aspectos relacionados às questões reprodutivas, às liberdades e aos limites do paciente em dispor de seu corpo, entre outros temas, estão na ordem do dia nas discussões dos conselhos médicos.

A modernidade produziu incrementos até na milenar relação médico-paciente. A discussão sobre o papel e o alcance da Telemedicina é hoje objeto de debate, inclusive no parlamento. Ainda sem uma definição de como essa ferramenta irá ser regulamentada no pós-pandemia, é certo que o retorno exatamente ao que era antes não será uma opção.

Todas estas mini revoluções permanentes na Medicina provocam em médicos e em pacientes uma inevitável ansiedade. Nos médicos, a natural sensação de estarem sempre atrasados em relação ao que há de mais moderno em termos de propedêutica e terapêutica. Nos pacientes, a consequente sensação de desconfiança sobre o quão atualizado é o tratamento que lhe foi proposto e se há, no mundo, algo melhor e mais efetivo a ser feito.

Não há receita de bolo para lidar com esse dado da realidade. Nada é permanente, exceto a mudança, diz a célebre frase de Heráclito. Se ela é verdade universal, não há como a arte médica ser imune. E, sendo assim, não haveria hoje nada da arte de Hipócrates no dia-a-dia de nossos consultórios, certo?

Seguramente, não. Há gradações de intensidade nestas mudanças, e, de modo objetivo, há ritos e práticas atuais que se assemelham às do nosso patrono grego. Mas não estou atrás do parecido. O título do artigo sugere a busca do imutável. Há algo que não mudou ou que, ao menos, não deva mudar?

Hipócrates foi fruto de uma sociedade que nos deu a civilização como a conhecemos no Ocidente. No mundo hipocrático grego floresceu a Filosofia, que é a busca ou o amor pela Verdade. O filósofo, nos dizeres do saudoso Professor José Muniz Nasser, “é aquele que diz o que a coisa é”. É nessa atmosfera de amor pela Verdade que nasce a arte médica, com contornos de Filosofia.

A busca pela Verdade física, em termos atuais, pode ser alcançada pelo método científico, tão em voga em tempos de pandemia. Ciência é a palavra da vez! E é nela que a boa Medicina se ancora. Sua metodologia, construída e inaugurada pelo mais famoso dos gregos, Aristóteles, por meio de sua Dialética e sua Analítica, é, em essência, o que nos ensinou o mestre médico Claude Bernard em sua “Metodologia Científica”, manual para todo médico formar seu juízo acerca das coisas de sua arte.

Ao lado de mudanças velozes e constantes que alcançam a Medicina, algo parece perene, imune às revoluções sucessivas e cada vez mais frequentes. Uma das formas de nos mantermos atuais é dominar aquilo que em nosso ofício é permanente. Se tudo muda na arte médica, o amor pela Verdade segue - ou deveria seguir - eterno. Não se sabe se ele será suficiente para amenizar nossas tantas ansiedades, mas a fidelidade ao raciocínio científico autêntico nos ajudará, como recomendavam os gregos, a caminhar em direção à Verdade.

*Médico do Ministério da Saúde, mestre em Economia pelo IBMEC. Atual diretor do Hospital Azevedo Lima