A chama olímpica queima o esporte

Na rua, toca a sirene do carro do Corpo de Bombeiros. Sirene de incêndio, grita sua urgência: há risco de morte. Os pedestres, na calçada, olham a um ponto fixo. Outros dois caminhões vermelhos, igualmente alarmantes, seguem o primeiro. Desviam dos pequenos automóveis como água em corredeira que contorna pedras no leito raso de um rio.

A cidade queima. O mundo queima. Aqui e em Tóquio. Aqui, quase 550 mil mortes por Covid-19 num país de 211 milhões de habitantes. No Japão, os Jogos Olímpicos terão início em uma nação de 15 mil mortes pela doença e 125 milhões de cidadãos. A cada morte no país oriental, cerca de 35 ocorrem no Brasil. Mas essa desigualdade, um absurdo, não apaga outra insensatez: a realização das tais competições esportivas em terras onde o número de óbitos e pessoas infectadas têm crescido e a quantidade de gente vacinada não chega a 20% da população.

Lá, como aqui, o importante é não perder dinheiro. Não interessa se 83% dos japoneses são contra a realização dos jogos ao menos neste momento, de acordo com pesquisa publicada em matéria no jornal Asahi Shimbun e republicada na semana passada pela BBC. O Primeiro Ministro japonês, em discurso alinhado ao do Comitê Olímpico Internacional (COI), disse que a competição pode ser realizada com segurança. Segurança de quem, cara pálida? Alguém acredita nisso?

Segurança, só se for do bolso do COI, da prefeitura de Tóquio e de corruptos que circulam ao redor dos lucrativos anéis olímpicos. A reportagem da BBC revela ainda que, em caso de cancelamento, a prefeitura da cidade bancaria o prejuízo. Aqui, como lá, as vidas não valem tanto. Não valem os 12,6 bilhões de dólares – ou mais – investidos pela cidade, nem o passivo financeiro decorrente dos cancelamentos de contrato de transmissão e patrocínios.

E os atletas japoneses, o que pensam? A tenista Naomi Ozaka, em entrevista à BBC Sports, disse que a questão deveria ser aprofundada, já que as pessoas não se sentem seguras. Um comentário que mostra preocupação com a situação da pandemia, embora pouco incisivo. Muitos outros atletas representantes do país sede, no entanto, se calam. Uma vergonha! Vergonha semelhante ao manifesto da antipática seleção brasileira de futebol masculino quanto à realização da Copa América no Brasil, dias atrás.

Quando o interesse pessoal de sujeitos ligados ao COI, atletas, técnicos, políticos e empresários se sobrepõe ao desejo de mais de 8 em 10 pessoas locais contrárias aos jogos, a tocha olímpica adquire um significado perigoso. Se, na origem, o fogo anunciava um período de paz entre os povos, uma trégua para a realização das competições, a tocha que agora passa de mão em mão sinaliza perigo iminente. No caminho para o estádio olímpico, talvez o povo da cidade, prudente, se esconda no interior de suas casas. Tampouco parece provável que os japoneses acompanhem o evento com entusiasmo. Por que dar audiência a emissoras de tv ou apoiar patrocinadores que contribuem com o fracasso do espírito olímpico, em seu país?

A tocha queima, descontrolada, inflamada pela ambição e vaidade de uns poucos. Faz das competições cinzas. Evapora, por onde passa, a ideia de que esporte é vida. Resta aos cidadãos comuns poder acreditar não em atletas olímpicos, mas na ajuda de anônimos. Como os que, instantes atrás, passaram aqui pela rua, no carro do Corpo de Bombeiros, para apagar o incêndio que se alastrava.

Não há mais burburinho. O fogo nas redondezas, ao que parece, foi controlado. Não há mais chamas. Cinzas, talvez. Aqui. E no Japão?

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores. Autor do romance “Através”.