Crise que desafia

.

A questão essencial, no centro das dificuldades vividas pelo país, já nem é reconhecer a necessidade urgente de um mínimo de distensão no campo dos conflitos, que, se antes tinham como únicos atores políticos e juristas, agora passaram a contar com a participação de militares, sejam eles da reserva ou da ativa. Tudo conspirando para confiar o Brasil a um delicado caminho de impasses, cujas dimensões ficam na dependência de humores imprevistos.

O que se impõe – e aí vem a grande dúvida – é saber a quem confiar, no ápice das dificuldades, a missão pacificadora, capaz de conter os ânimos mais exaltados, criar espaços para o diálogo, um pouco de água fresca na fervura. Em tempos idos, tarefa dessa envergadura tinha endereços certos, indo bater à porta de Tancredo, Ulysses, Covas, Arinos, Thales Ramalho ou Mílton Campos, entre os geralmente disponíveis para encargos delicados. Hoje, a quem confiar tal missão?, só exitosa se alicerçada no talento e na experiência de bombeiros. Mas estamos num país de incendiários, homens engalfinhados e zangados.

Quando se traça a linha de esforços para a superação da crise que vai se agravando, o primeiro a que normalmente se deve recorrer é o magistrado superior, o presidente da República. Porém, é exatamente aí que as esperanças quedam frustradas, porque eliminar divergências é algo que não frequenta suas praias, foge de seu temperamento. Sem adotar qualquer cacoete de pacificadores, pelo contrário, Bolsonaro tem se revelado exímio artífice no engenho de escorar no peito a bola das cisões, e entrar de sola no gramado onde prosperam rancores e divergências. Estranho, a propósito, que seus opositores figadais se deixem obnubilar, a ponto de não perceber que, muitas vezes, têm trabalhado, inadvertidamente, para fomentar um estado de coisas que vai exatamente ao encontro do que serve aos planos do presidente. Os adversários passam por cima de evidências. Provado, portanto, que em crise política não se trata de homem capaz de lançar salva-vidas, é arriscado esperar dele um barco que navegue em águas agitadas a recolher navegantes da tormenta. Não foi pra isso que ele veio.

Por outro lado, fica longe da irrelevância a entrada em cena dos militares, a começar pela voz do ministro e dos três comandantes superiores, que se levantaram, com vigor, contra o presidente da CPI da Covid. Entenderam que as denúncias de Omar Aziz sobre corrupção entre militares pecaram pela generalização. Ficando um ambiente hostil, não adiantou a tentativa do presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco, que apelou para a sua mineirice, definindo tudo como um mero mal-entendido. Pelo contrário, o descontentamento fardado ficou muito bem entendido.

O episódio revelou-se apropriado para estimular golpistas de plantão, estes também partidários de violências contra a democracia. Têm memória curta, esqueceram coisas de passado não tão distante.

Se o cenário não sugere tranquilidade, valeria lembrar que agosto vai se aproximando, com sua tradição agourenta. O mês, de fato, nunca foi suave para a política brasileira, tornou-se impiedoso produtor de crises, nas quais nem faltaram suicídio, renúncia de presidentes e quarteladas. É um mês que não estima nossa paz. E este julho corrente, quente, embora invernal, vai marcando um clima que contribui para intensificar tensões, entre as quais pontifica a CPI, cada vez mais confusa e provocante, com os parlamentares que a integram acusando o presidente do Senado de desprestigiá-los.

Trajetória de um impeachment

A primeira fase da campanha deflagrada para levar o Congresso Nacional a declarar o impedimento de Bolsonaro envolve aspectos substantivos, que cabe examinar com cuidado, mesmo considerando que são 120 as propostas para processá-lo, e que adormecem na gaveta do presidente da Câmara, Arthur Lira, a quem cabe decidir se a matéria deve ou não tramitar, segundo os ritos regimentais. Para justificar sua resistência, como governista, Lira argumenta que boa parte das motivações para o afastamento só tem inspiração em ideias políticas contrariadas. É, pois, um obstáculo poderoso a esvaziar, enquanto poder, uma ação concreta; e ele já deu clara demonstração de que devem espera a eleição de 2022 os que desejam rifar Bolsonaro da vida pública. O lance mais recente a incomodar seu propósito de conter a campanha é uma pesquisa popular que apoia a discussão da delicada matéria.

Um detalhe pertinente, este de ordem aritmética, é que o impeachment necessita do voto de 342 dos 513 deputados. E, hoje, o apoio declarado está restrito a 140. Os números, se projetados, sugerem que o assunto tem caminho longo a percorrer.

Outro ponto em que a campanha esbarra, e desafia seus patrocinadores, é que as manifestações da oposição ao presidente, realmente expressivas, ainda não chegaram a um volume tal, que motive o Congresso e silencie as motos bolsonaristas. As ruas e as praças é que costumam dar a sentença irremediável, mas hoje parecem inseguras.

Avançamos agora para um ponto que também tem papel, digamos, desmotivador; e vem dos setores produtivos, que já viveram experiências suficientes para temer grandes rupturas, como a que se pretende agora. A economia não quer fechar o segundo semestre sem estar suficientemente blindada para enfrentar consequências da substituição do presidente, mesmo que ela se processe pela via da legalidade. Os produtores entendem que os desdobramentos seriam perigosos. Percebe-se que o setor agro é, neste momento, o que mais teme as consequências de crise política aprofundada, a começar pelo risco da inflação descontrolada. O temor é antigo. Foi o que levou o ex-ministro da Fazenda (hoje Economia) Clemente Mariani a lembrar o que poucos ficaram sabendo: a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, inflacionou mais que todo o mandato de Juscelino.