Ilusão e Delírio: Populismo e Anarquia

Em boa hora o “Roda Viva” nos presenteou com a presença de Andre Lara Resende segunda-feira passada. Nesses tempos, em que o nível intelectual do debate político no Brasil vem sempre carregado de conteúdo ideológico e de certezas onipotentes, ouvir e ver um intelectual como Lara Resende colore a escala do debate e sublinha a imensa perda de tempo e de energia por que passamos os brasileiros nos últimos quatro anos.

Embora economista de formação, Lara Resende pertence à galeria de pensadores contemporâneos que ultrapassam os estreitos limites do pensamento profissional e se iguala a outros cientistas políticos como Stiglitz, Klugman, Piketty e Aglietta, todos também de formação econômica,a nos iluminar sobre os diferentes aspectos e desafios da sociedade moderna.

Lara Resende não poupou críticas ao modelo econômico neoliberal, defasado diante da realidade deste século 21, perplexo perante o crescente aumento da disparidade social e a consequente atração por soluções autoritárias em que o Estado Democrático de Direito se torna a primeira vítima em mãos de Trumpistas e outros mitômanos no cenário político nacional e internacional.

Não pretendo recapitular as críticas de Lara Resende à macroeconomia brasileira, mas me parece absolutamente importante recordar dois temas interligados mais à teoria politica do que ao modelo econômico em fase de implementação destrutiva no Brasil. O primeiro deles se refere ao papel do Estado no desenvolvimento econômico do país, percebido por neoliberais mal-avisados como manobra de viés socialista. Lara Resende esclarece o ponto de forma cristalina ao se referir à privatização da Eletrobrás.

Após assinalar a complexidade do sistema no Brasil, ele nos adverte sobre o risco de disfunções de uma privatização inorgânica sem o planejamento estratégico do Estado. Admite eventuais concessões públicas em setores do sistema, sempre subordinada e coordenada com o planejamento estratégico do Estado a médio e longo prazos. Mais claro, impossível.

Finalmente, em resposta a pergunta direta de um entrevistador, Lara Resende não se furta a nos alertar sobre a insustentabilidade das disparidades sociais decorrentes de um desmonte institucional já claramente percebido no Estado do Rio de Janeiro onde a institucionalidade governamental vem sendo paulatinamente corroída pelo aparecimento de nódulos de governabilidade informal quando não ilegal.

O diagnóstico de Lara Resende se aproxima do estadista democrático a ver com lucidez o tenebroso caminho a arrastar a sociedade brasileira com a mitológica ilusão de que nos enredamos numa polarização insuperável, onde o autoritarismo crescente e antidemocrático nos livraria da catástrofe de um regime em que os pilares do capitalismo seriam solapados em favor de um regime comunista ou coisa que o valha.

Ao contrário, penso eu, se tivermos postulante ao cargo presidencial capaz de responder com tranquilidade os esgares histéricos e antidemocráticos de parcela substancial de nossa elite política, a polaridade artificial seria desfeita como bolha de sabão.

Temo, porém, que nenhum estadista poderá aventurar-se nesta estrada sem que as chamadas “forças produtivas” da nação repilam o falso guarda-chuva autoritário a que muita vez recorreram por temor de ataques reais ou imaginários ao direito de propriedade privada, tornado cláusula pétrea em nossa Constituição de 1988.

Ao contrário dos anos do imediato pós-guerra, em que a bipolaridade Estados Unidos-União Soviética poderia instigar, até mesmo nos Estados periféricos, movimentos revolucionários alimentados do exterior contra a propriedade privada em sentido lato, paradoxalmente, no século 21, são evidentes as consequências de um capitalismo desfigurado por uma globalização assimétrica e um empobrecimento de camadas sociais antes destinadas a melhor padrão de vida do que os de seus pais e avós.

Basta recordar os efeitos ainda sequer totalmente conhecidos advindos da crise financeira de 2008 em que a classe média americana perdeu grande parte de seu “status”, de suas casas e seus filhos viram-se endividados por acesso a ensino superior transformado num “Big-Business”.

Idêntica reação observamos nos países da Europa Central , ressentida com os mesmos problemas e aproximando-se cada vez mais de regimes autocráticos em grande parte decorrentes de sucessivas frustrações com a importação do modelo neoliberal após a queda do muro de Berlim.

Esses fenômenos sociais se aprofundaram com a Pandemia e colocaram em cheque certos pressupostos neoliberais e globalizantes escancarados com o oligopólio de vacinas, a escassez de produção de equipamentos médicos. Neste quadro, impõe-se repensar o capitalismo financeiro, coisa aliás que os Estados Unidos da América tentam fazer com Biden e seus programas de investimentos públicos. O recente acordo de imposição de taxas mínimas às transnacionais por mais de 130 países (Brasil) poderá atenuar a brutal evasão fiscal de um capitalismo cada vez mais improdutivo.

No Brasil, caminhamos a contra-corrente. O super ministro da Economia continua firmemente ancorado nos ensinamentos da Escola de Chicago de Friedman e nos convida a aceitar reformas políticas e econômicas retrógradas, ao mesmo tempo em que se mostra impermeável às realidades transformadoras nos Estados Unidos da América e arrasta a sociedade brasileira para um paroxismo de pobreza e de ódio.

As alternativas para o Brasil estão claras e não necessitamos de diagnósticos mais elaborados. Em torno das soluções, porém, levantam-se muralhas, de medo algumas, de cupidez muitas outras. O desenrolar dos trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado Federal abriu um cenário desolador diante da cidadania brasileira. Impossível não constatar com pavor e sofrer com humilhação o desnudamento de uma rede de falcatruas e cobiça indecentes num quadro de Pandemia agravada pela incúria, pelo curandeirismo e pela indiferença à tristeza e luto pelo desaparecimento sufocante de mais de meio milhão de compatriotas, de amigos, de parentes queridos, de amores confrangidos.

Pior ainda, torna-se usual e quase diária a reação agressiva ,sempre desrespeitosa aos reclamos de uma cidadania revoltada. Justificar desmandos e covardias como resultantes de possíveis desvios ou taras psicológicas ou éticas deste ou daquele agente público, desta ou daquela organização estatal, apenas reforça os exemplos históricos, alguns recentíssimos, de carnificinas promovidas em nome de um Ego dividido entre a ilusão e o delírio. A restauração da sanidade só se dará com a resistência inabalável e sempre pacífica a desmandos e provocações com o velado propósito de aceitarmos a entrega da soberania popular aos arquitetos do caos totalitário de direita ou esquerda como Hitler, Mussolini, Stalin, Franco, Salazar, Duterne, Orbán e seus seguidores, simpatizantes ou preceptores como, em primeiro lugar, Donald Trump, cuja visão de mundo não discrepa de sua afinidade com os jogos de azar, roletas e licenciosidade sobre as quais investiu um capital viciado a serviço dos aspectos mais predatórios da natureza humana. Ao transpor para a política sua arenga de crupiê quase levou os Estados Unidos da América a uma nova guerra civil, desta feita comprometida com a supremacia branca, o Estado policial e o capitalismo selvagem. E há no Brasil quem o admire e o considere digno de respeito e de imitação, inclusive em seu desrespeito à alternância do poder no regime democrático.

A cidadania é a única força a se contrapor à evidente aventura autoritária-despótica a nos ameaçar com a fraude contratada do processo eleitoral. Apenas a manifestação crescente da rejeição determinadaa impulsos autoritários irrefreáveis nos dará, talvez, a possibilidade de retomada de nosso destino de nação democrata, civilizada e fraterna. E sobretudo social e politicamente afinada com os princípios e mandamentos de nossa Constituição de 1988. A Carta mais eloquente elaborada pelo povo brasileiro contra o despotismo, a arbitrariedade, a desigualdade e a ditadura.

*Embaixador aposentado