Escuta como resistência

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No momento em que escrevo, mais de 507 mil brasileiros morreram em decorrência da covid-19. Como se não bastassem a morte e o luto das famílias, o Brasil tem 14,8 milhões de pessoas desempregadas, dados do IBGE referentes ao primeiro trimestre de 2021. E se considerarmos, ainda de acordo com o IBGE, as outras 76,5 milhões de pessoas em idade produtiva ausente da força de trabalho formal, há mais de 90 milhões de brasileiros sem carteira assinada. Essa é a tragédia que vivemos.

Com a vida em risco e, em sua maioria, sem perspectiva financeira, trabalhadores formais, informais, desempregados e desalentados são obrigados a conviver com a crescente intolerância a cozinhar uma sopa indigesta neste caldeirão perverso de relações sociais que é o Brasil. É o país do “nós contra todos”, onde todos querem falar mas poucos estão dispostos a ouvir. A pandemia forçou as pessoas ao isolamento e restringiu, ainda mais, o convívio presencial aos pequenos grupos, casas, quartos, casulos. Em oposição à redução do espaço físico de convívio, crescem as comunidades virtuais, que privilegiam a concordância. O discordante é excluído, ou cancelado.

Preso nesse visguento deserto de ideias, recebi duas ligações esta semana. Coisa rara na era do WhatsApp. Na primeira, um amigo com quem não conversava há anos. Colocamos em dia os assuntos de família. No meio de frases como “E sua mãe, seu irmão, como vão?” e “As crianças crescerem, puxa vida” tangenciamos a política sem citar nomes ou partidos políticos, receosos do papo se desviar para um caminho perigoso. Num acordo tácito de cavalheiros, evitamos citar os responsáveis pela situação crítica atual, embora tenhamos conversado sobre os problemas do cotidiano, indignados pelo absurdo. Na qualidade de ouvintes, privilegiamos a harmonia. Afirmar posições era desnecessário.

O segundo bate-papo começou mais sanguíneo. Esse amigo manifestou sua revolta contra a falta de discussão. Afirmativo e bem informado, queixava-se de não haver mais espaço para o diálogo. Tive o impulso, num dado momento da conversa, de levantar a voz, contrariado. Me calei, ciente de que o diálogo não tinha o objetivo de convencer, mas estreitar laços cujos fios, embora firmes, pudessem ter sofrido certo dano pela ação do tempo. Pouco antes de desligar o telefone, estava reconfortado pela sensação de estar um pouco mais inteligente. Pude conter a irascibilidade e preparar os ouvidos para uma opinião diferente.

Incitados, quase insuflados a emitir alguma opinião, temos à nossa disposição inúmeros canais de fala. Por questões publicitárias e comerciais, nosso comportamento é estudado com fins de engajamento. O objetivo é reagirmos às publicações que pipocam nas telas de celulares e notebooks. Sobram canais de fala, sobra vontade de desbancar o outro. Faltam canais de escuta.

E se falar, falar e mais falar parece não ter adiantado muito até agora, quem sabe a alternativa não seja fecharmos, voluntariamente, alguns desses canais de expressão? Ao menos temporariamente, para descansar o músculo da língua. Diz-se ser necessário resistirmos. A escuta, nesse momento, pode ser uma boa forma de resistência a um discurso ausente de reflexão.

Quampérius, personagem descrito pelo poeta Chacal no livro “Tudo (e mais um pouco) – Poesia Reunida” (Editora 34, 2016), “aprendeu a voar com uma cabra que ele criava com especial carinho pois ela falava”. “Me ensina a voar”, perguntou Quampérius à cabra de nome capricho. “Não faça como eu”, ela disse. Ele escutou. E voou.

Semana que vem, vou buscar na agenda de papel alguns números de telefone. Tentarei alguns. Com sorte, ao escutar uma antiga voz conhecida, resgato alguma amizade.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores. Autor do romance “Através”.