O Renascimento brasileiro

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Dois anos de ameaças quase diárias à Democracia levaram finalmente a sociedade brasileira a manifestar nas ruas sua inquietação com os rumos do autoritarismo no país. As marchas pacíficas de sábado passado não poderiam ser mais eloquentes sobre o cansaço da sociedade com a insensatez de nossa política econômica, com o agravamento do desnível social e com a reiterada ideologia do quanto pior melhor.

Muitos de nós sequer compreendemos as razões de tanto ódio instilado gota a gota em nossas veias a transformar nossa sociedade em um campo de batalha ideológico, com agressões descabidas ao simples bom-senso.

A política econômica do governo, apresentada como revolucionária em seu modernismo, apenas resulta em quadro social desolador, aprofunda a pobreza e a miséria de milhões de brasileiros antes melhores de vida e com maiores expectativas de crescimento.

A política de combate à Pandemia é um fracasso funéreo e transforma o Brasil num dos maiores, senão o maior, exemplo da combinação de curandeirismo e indiferença social enlutando nossa sociedade em um corte vertical a não poupar ricos ou pobres.

As tão trombeteadas reformas estruturantes prosperam apenas quando reduzem direitos sociais, trabalhistas e previdenciários. O servidor é apontado como um parasita nacional e se pretende reformar o serviço público de forma a regredir nos padrões de excelência de carreiras indispensáveis ao bom exercício do governo.

A todas essas evidentes manobras mal-sucedidas a sociedade se curvou docilmente, embalada por uma perspectiva de melhores dias e de um melhor país. Uma esperança frustrada.

As últimas semanas nos levaram a todos a perplexidade de assistirmos regurgitamentos autoritários, acompanhados de ameaças públicas em horário nobre na televisão brasileira e em encenação teatral muito próxima de tempos ditatoriais já superados. Perde-se o governo numa sucessão de reprimendas públicas à imprensa e de reiteradas ameaças à ordem democrática.

Os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito desvendam, com surpreendente pertinência, graves suspeitas de desleixo na Pandemia e até mesmo de conduta imprópria em compras governamentais de vacinas. Um crime hediondo.

A se confirmarem os indícios de corrupção e falcatruas, ironicamente tornadas públicas por um servidor concursado, um dos muitos em fase de extinção ou apontados como parasitas do Estado, à condução imprevidente do combate à Pandemia virá se juntar a criminalidade da corrupção.

A par dessas suspeitas a nos rondar e a nos fazer temer pela eclosão de violência seja pela miséria estrutural seja pela ideologia, em nada ajuda o questionamento do sistema eleitoral brasileiro, em especial sobre a credibilidade de urnas eletrônicas cuja eventual substituição por cédulas de papel nos levaria aos tempos do coronelismo, da enxada e da chibata.

Hoje já não resta dúvida que muito de nosso atraso acelerado dos últimos anos decorre de uma política de afinidade com o pior do reacionarismo trumpista. Acreditamos no que se denominava antigamente,”une folie à deux“ e em poucos meses nos transformamos num fracasso retumbante a nossos olhos e aos olhos do mundo.

Infelizmente, não tivemos a argúcia de perceber que os primeiros a buscar livrar-se de Trump foram os próprios americanos que nele identificaram a expressão ambulante de uma patologia social a refletir-se na violência política e na criminalidade estimulada por um porte de armas descabido. Biden representa uma tentativa de restauração em sentido amplo: nacionalista e imperial, porém muito mais na linha de Roosevelt e do "New Deal". É palpável a semelhança entre Biden, Roosevelt e seus tempos. O de Roosevelt espremido pela crise de 1929 e pelos totalitarismos de Hitler e Mussolini. O de Biden pela persistência do racismo, do nacionalismo retrógrado e pela disseminação de regimes autoritários sobretudo em países ressentidos com as fraturas da hiperglobalização, do neoliberalismo e dispostos a um mergulho numa Direita anárquica.

O Brasil não percebeu que se tornou um náufrago do trumpismo e se alimenta de autoritarismos decadentes e torna inviável o renascimento do país em bases firmadas no desenvolvimento sustentável e nos princípios democráticos.

Não surpreende neste torpor cívico que o líder do governo na Câmara dos Deputados tenha advogado ainda recentemente a convocação de uma Constituinte composta de sábios pois a atual Constituição seria impraticável pelo excesso de Direitos individuais nela inseridos.

Mas, contra esta e outras ideias estapafúrdias, a sociedade brasileira já se mobilizou semana passada. E o movimento promete crescer.

*Embaixador aposentado