Um sintoma

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O Ocidente, diferente de outras tradições culturais, privilegiou a visão, convertida em símbolo da inteligência. Entretanto, temos de aprender a olhar, e atentamente. O mundo se mostra para nós, porém não automaticamente.

"Costuma-se comparar a atenção como uma luz que ilumina", escreveu Husserl. Saída do estado de dispersão, ou de imersão nas coisas, consiste em deixar o movimento impessoal, sair da corrente, para deter-se efetivamente.

Para prestar atenção, é preciso se desfazer de pressões, do apressamento e, acima de tudo, de esquemas prefixados. Ao olhar atento se revelam os valores das ações e dos acontecimentos: o justo ou bom se impõe por si mesmo.

O esforço para ver tem, em contraposição, visão distorcida ou o desinteresse com relação ao que é, ou acontece. Ao contrário do que possa parecer, e tendemos a acreditar, de fato não estamos acostumados a olhar o mundo real.

Na melhor das hipóteses, olhar atento pode se efetivar em vários tempos, ser acompanhado de adequada descrição. Precisamos tentar descrever o que percebemos, mesmo porque a percepção requer e gasta todas as nossas energias.

A atenção nos aproxima do concreto; a percepção da fragilidade das instituições nos faz mais responsáveis. Característica notória das instituições é a complicação, um sintoma de processo insensato, gratuito, artificioso.

Deste processo vem imediatamente a confusão. Da confusão, o pressentimento de que este enredo não tem saída.

Engenheiro, é autor de "Por Inteiro" (Editora Multifoco, 2019)