FHC-90 ou A política: modo de usar

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A entrevista de Fernando Henrique Cardoso a Roberto D’Ávila, segunda-feira passada, talvez seja das melhores cartas de um político a seu povo. Carta sem grandiloquência, sem linguagem empolada, sem barroquismo nem dramaticidade. Uma carta de amigo, temperada pela vivência dos noventa anos a recordar-lhe a vida pública, do desterro à presidência da República. Carta aberta, fraterna, a transmitir a palavra cautelosa do político, com a séria advertência do Estadista.

Nas entrelinhas nenhuma concessão à sintaxe estereotipada do militante deste ou daquele Partido, nenhuma gesticulação do candidato a voto ou aplauso. Apenas a sabedoria do timoneiro a pressentir as subterrâneas correntes pouco visíveis a olhos ingênuos ou, pior, a sentimentos tangidos por um inequívoco desvio do porto-seguro.

Já lemos cartas trágicas e nada se compara ao testamento de Vargas, cuja ênfase terá certamente adiado por um decênio o que se urdia contra um governo liberto das ênfases anti-democráticas dos anos 35-45 e nos permitiu chegar aos melhores tempos desenvolvimentistas de JK.

JK, talvez o maior presidente de minha geração. O homem a desenhar no cerrado Planalto Central o traço suave do futuro. E em nossos corações a alegria de nos sentirmos predestinados à liberdade, à Democracia e a um país digno de suas riquezas e da criatividade comprovada de seus candangos. Tudo isso, sem perder o sorriso, com a caneta generosa da anistia aos rebelados e inconformados. Estadista com a coragem de unir-se a adversários políticos numa aliança em nome da pacificação. E a receber em troca a infâmia de morrer sem os direitos políticos. Um sepultamento em vida. Uma degola fundamentalista. Terrorista.

Como JK,Tancredo nos acenou com a retomada do desenvolvimento após uma noite insone a terminar com o pesadelo de sua morte prematura, dolorosa, a nos atemorizar com a volta da era glacial e dos ventos da desesperança.

E surge com a coragem dos libertos a figura do nosso gigante Adamastor, reencarnado em Doutor Ulisses, a nos conduzir às marchas inesquecíveis das “Diretas já“ e da Constituinte, de onde emerge, debaixo de sua maestria política, a Constituição mais democrática e igualitária esculpida pela vontade deste povo brasileiro.

Sarney, levado pela mão do destino a conduzir uma nação ansiosa por mudança de rumos, haveria de consagrar-se por governo de tolerância e diálogo e, junto com Alfonsin, enterrar definitivamente a histórica e fútil rivalidade com nossos vizinhos, abrindo entre Brasil e Argentina um capítulo repassado a limpo e decididamente construtivo em nossas relações bilaterais e em nossa solidariedade mútua nas negociações multilaterais.

Nós, diplomatas que havíamos vivido os ásperos tempos da construção de Itaipu, fomos os maiores beneficiados pela união de forças entre duas das melhores diplomacias das Américas, as do San Martin e do Itamaraty. Pena que hoje, por razões muito distintas da geopolítica de Sarney e Alfonsin, estejamos a colocar em risco toda uma diplomacia arquitetada em função de nossos interesses mútuos.

Hoje, se reverencia o monetarismo de curto prazo em detrimento dos investimentos permanentes do interesse nacional. Um reducionismo diplomático que há de se juntar a tantos outros desvios da boa rota inaugurada, é sempre bom lembrar, por dois pilares de nossa política externa independente, não subordinada, não caudatária, como Afonso Arinos de Mello Franco e Francisco Clementino de San Tiago Dantas, ambos exemplos de que a Diplomacia brasileira não se pauta por ideologias partidárias e sim pela compreensão de nossos interesses num teatro em constante alteração de cenários.

A rápida, porém significativa, passagem de Itamar como presidente do país deu início à moderação necessária ao burlesco neoliberalismo ao chegar ao Brasil com alardes de revolução cultural. Itamar preocupou-se com o saneamento da economia corroída pela inflação resistente a diferentes planos macroeconômicos, quase todos invariavelmente destinados ao fracasso pelas tensões crescentes de um figurino importado com o rótulo de Consenso de Washington, uma burla, a que Itamar resistiu. No governo dele se inicia o Plano Real que levaria Fernando Henrique a oito anos de governo.

Os dezesseis anos de Fernando Henrique e Lula, apesar das óbvias e inevitáveis dissensões partidárias, mudaram para melhor o Brasil. O governo de Fernando Henrique teve o grande mérito de domar a inflação e o de Lula o de liquidar a dívida externa brasileira, retomar o crescimento econômico e implementar e aprofundar programas sociais em linha com os princípios de justiça e equidade inscritos na Constituição de 1988.

Os eventos ocorridos pós segundo mandato de Lula encontram-se ainda em fase de tramitação judicial na mais alta corte do país e seria descabido aqui antecipar juízos de valor sem conhecer a manifestação final do Supremo Tribunal Federal.

Nada impede porém reconhecer que vivemos hoje período particularmente perigoso para a sociedade brasileira, independente de classe social ou simpatia partidária. A pandemia certamente é ou deveria ser a preocupação maior de todos, autoridades e cidadãos, pois é evidente o morticínio a se abater sobre o país e o risco de que novas cepas do vírus letal possam ainda circular e aumentar ainda mais o número de mortos que já beira ao meio milhão.

Assim como seria precipitado antecipar as decisões do Supremo Tribunal Federal, igualmente prematuro será fixar responsabilidades sobre o encaminhamento dado por nossas autoridades ao combate à Pandemia antes das conclusões da Comissão Parlamentar de Inquérito especialmente criada com este fim. Mas, a sociedade enlutada não aceitará a sempre buscada “exclusão de ilicitude”, porteira aberta à insanidade e ao arbítrio.

Uma das mensagens mais claras de FHC, talvez a mais preciosa delas, foi a recordação que nos traz sobre o compromisso inabalável da sociedade brasileira com a liberdade democrática demonstrada em momentos de crises institucionais dentre as quais movimento pacífico e suprapartidário como o das “Diretas já“ é prova contundente.

Nenhum dos presidentes citados acima jamais nos insultou com veladas insinuações de incitar a Defesa Nacional como força anti-democrática e não há dúvida de que a simples hipótese de subverter a integridade cívica do país e mergulhar irmãos de sangue em luta fratricida coloca em nossos corações um grande medo e imediatamente nos recorda a advertência de Camões de que “o fraco rei faz fraca a forte gente”. E o temor da secessão civil estimulada por quem deveria ser o principal opositor da desunião nacional provoca pânico além da Pandemia e nos leva ao impensável. Ao risco da divisão territorial. Ao provável intervencionismo militar estrangeiro. À terra de ninguém.

Daí a importância da carta de FHC nos seus noventa anos. A tranquilidade com que FHC nos assinala que entre ele e Lula, apesar de divergências programáticas, jamais será abalada a profunda identidade com a ordem democrática.

E este é o denominador comum que os une e deve ser o elo a nos unir a todos. Recordar os passos democráticos de nossos presidentes nos últimos cinquenta anos, nos ensina duas coisas, pelo menos: não somos uma república de bananas e, na vida política, sabemos muito bem distinguir o Estadista democrata do populista autoritário. E estamos cansados de deuses milagreiros, profetas de botequim, economistas mitômanos e estrategistas de um planeta em plano inclinado. E de oradores mamonas assassinas do idioma nacional. O Brasil merece melhor.

Nestes dias de ira e luto, apenas a consciência de nossa grandeza como nação, nossa determinação de fazermos de nosso país o lar de nossos filhos e netos onde impere a lei da ordem, mas também a justiça social deverão guiar nossos passos em claro repúdio ao autoritarismo castrador de nossa inteligência e de nossa criatividade cultural.

Forçoso reconhecer que a cada dia de desesperança, de acusações mútuas e de recriminações se perdem o tempo e o vigor necessários para nos integrarmos definitivamente na agenda de trabalho que nos impõe a Constituição de 1988. Nela estão bem descritos nossos deveres e nossos direitos. Nela somos intimados, desde logo, a oferecer educação e saúde públicas gratuitas a nossa população, investimento público auferido de uma tributação progressiva e socialmente equilibrada e, desta forma, fazer de nosso Brasil um país respeitável e respeitado, sócio pleno dos movimentos de preservação da paz e do desenvolvimento sustentável.

Temos que manifestar nossa mais firme discordância a aventuras trumpistas (o novo nome do caos político), assim como recusar de forma enfática o ópio do salvacionismo autoritário e anti-democrático.
O Brasil não é solúvel em "fake news” e o ódio nunca foi nossa bandeira.

*Embaixador aposentado