Votos custam vidas

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Enfim, fui vacinada esta semana. Por idade. Esperei quietinha a minha vez sem furar fila e sem forjar qualquer tipo de documento ou situação que me fizesse passar na frente de quem realmente tinha direito à vacina naquele momento. Não quero aplausos nem elogios por isso, afinal não fiz mais que a minha obrigação. É puramente questão de ética. Porém, deixo registrado para que quem se vacinou fora da vez sinta um tiquinho de vergonha – mera ilusão, eu sei. Mas me sinto melhor me iludindo assim.

Mas o foco deste artigo não é a minha vacinação. E sim a falta da vacina. E como escrevo sobre as mulheres, a conta macabra é a seguinte: quase quinhentas mil mulheres morreram ou choraram a morte de alguém nesses quinze meses de pandemia. E a pergunta é a seguinte: das quase quinhentas mil mortes, quantas poderiam ter sido evitadas se o governo federal fosse um governo federal de verdade? Quantas mulheres estariam se vacinando agora, comemorando a sua vez, aliviadas – como eu estou! – ou não teriam chorado a morte de um familiar, um marido, namorado, filho, filha, namorada, companheiro ou companheira, um amigo, uma amiga? Nunca saberemos. Assim como nunca saberemos quantas mortes teríamos a menos no país se um mentecapto sádico não tivesse sido eleito no lugar de um professor. Nunca, nunca saberemos. Assim como as vidas que se foram nunca, nunca serão recuperadas.

E o resultado do cálculo é: votos custam vidas. Vidas que se foram com a pandemia e com o descaso criminoso do presidente que exaltava cloroquina e aglomerações. Corrigindo: exalta.

Votos custam vidas. Vidas de mulheres como Kathlen Romeu, que morreu grávida, vítima de uma ação policial na zona norte do Rio. “A polícia não foi recebida a tiros. Quem foi recebida a tiros foi a minha filha. A polícia deu tiros inconsequentes e executaram a minha filha”, desabafou Jackeline de Oliveira Lopes, mãe de Kathlen e avó do bebê que morreu na barriga da mãe de 24 anos.

Vidas de artistas como Paulo Gustavo, levado pela Covid-19 e pela irresponsabilidade e sadismo do governo criminoso que não quis comprar vacina o quanto antes. “Eu fiquei durante 53 dias rezando, pedindo que Deus me desse força”, disse Déa Lúcia, mãe do ator. Dona Déa segue forte. Sem o filho.

Votos custam vidas. Pensemos nisso nas próximas eleições. Se um sujeito que agrediu deputadas, uma ex-presidenta, mulheres com palavras de baixo calão, até mesmo a própria filha – “dei uma fraquejada”, lembram? – se candidatar novamente, que a própria legislação eleitoral seja usada a favor das vidas: que seja movida uma ação para que a candidatura macabra seja impedida. Estou certa de que temos advogados competentes o bastante para tal feito.

Fiquemos atentas. E atentos. Não merecemos mais quinhentas mil mortes por causa de uma pandemia para a qual cientistas produziram uma vacina que teve milhões de doses dispensadas por um governo assassino. O Brasil não merece. Vamos fazer a nossa parte: fiquemos atentos. E se um sujeito assim conseguir se candidatar, que não poupemos esforços para virar os possíveis e arriscados votos que ele possa ter. Já sabemos que esses votos vão custar mais vidas.

Por aqui, por enquanto, sigo rumo à segunda dose. De máscara, sem aglomerações e ouvindo os médicos e cientistas.

Lidice Leão é jornalista e mestranda em Psicologia Social pela USP, onde pesquisa o sofrimento psíquico da mulher. É pesquisadora do Laboratório de Estudos em Psicanálise e Psicologia Social (LAPSO) da Universidade de São Paulo.