Farsa e mitomania

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Se há coisa que me provoque engulhos é ouvir a sinfonia inacabada dos desocupados em salvar o Brasil do abismo. Já ouvi ao longo desses oitenta anos em que circulo pela planície terrestre, sem jamais colocar em dúvida sua esfericidade e ligeiro achatamento nos polos, muitas teorias e muitos profetas. Nunca como nos dias de hoje, em que a insânia misturada com a ignorância e salpicada de autoritarismo nos submetem a um cotidiano de intermináveis atentados à inteligência mais rudimentar.

Grande parte deste descompasso decorre, como sabemos, de nossa arraigada mania de imitarmos os saberes e dizeres de profetas de outros países a que admiramos por terem construído um paraíso consumista onde se encontra de tudo, desde armas semi-automáticas enviadas pelo correio para adolescentes interessados na exterminação humana, até à sofisticação cultural de debilóides a exaltar o próximo renascimento de uma humanidade livre, por força de limpezas étnicas, de diferenças de cor de pele e de religião, sempre que a raça superior seja a que pertence o referido debilóide.

Desde meados do século 20, impulsionado pela alquimia de Reagan e Thatcher, eles próprios marionetes de forças sequer compreendidas, o Brasil, como outros países, mergulharam nas águas turvas de um universalismo econômico supostamente libertador a receber na pia batismal o codinome de neoliberalismo, cuja mágica resultou em nova configuração de forcas planetárias em que imensos conglomerados financeiros passaram a corroer sistematicamente os conceitos e as instituições dos Estados-Nações.

Hoje, nossos mitômanos se distinguem pela crença de que apenas com adesão aos princípios e regras do neoliberalismo seremos capazes de vencer o atraso econômico e cultural em que nos encontramos. Essa milonga que já não vinha dando certo há mais de algumas décadas sofreu no ano da Graça de 2019 o imprevisível impacto da Peste com que até hoje convivemos e já vitimou quase meio milhão de brasileiros independente de classe, raça ou sexo.

Curiosamente, ou desgraçadamente, a irrupção da Peste no Brasil coincide com a chegada ao poder de mitômanos supradotados, senhores de uma sabedoria empedernida e esclerosada, retroalimentada por vaidade intelectual e soberbas só comparáveis a seus extensivos sentimentos de desprezo para com o bem público.

Paradoxalmente, após seguir como fanáticos o trumpismo-patológico durante ano e meio, sequer se deram ao trabalho de perceber que os ventos mudavam na nave-mãe e se jogava ao mar boa parte da bestialidade que até então a dirigia. Aqui, não. Decidiu-se que a manutenção da austeridade fiscal estilo garrote espanhol deveria ser aprofundada, decisão muito bem aproveitada pelo vírus da Peste a se fartar diante da pobreza, dos agrupamentos sociais e da diretriz insana de que a cloroquina seria preventivo mais adequado do que a máscara cirúrgica. Acabou na CPI, onde tudo se desvenda pela voz eloquente, abalizada e corajosa de uma mulher.

E nos vemos enrolados num cipoal aparentemente inextricável de maquinações, mentiras e miséria, ameaçados a regredir nas poucas conquistas sociais advindas da Constituição de 1988, de ossatura capitalista inquestionável, mas igualmente aberta aos princípios modernizantes e democráticos consubstanciados na proteção dos Direitos Humanos e na primazia do Estado Democrático de Direito. Capitalista, sim. Não neoliberal.

Os mitômanos de plantão, inscrevem em suas ordens do dia a imperiosa necessidade de podar o descalabro da proteção a direitos humanos, trabalhistas, previdenciários, sanitários e educacionais. Enquanto na nave-mãe se abrem torneiras para o investimento público e proteção da vida da população, aqui se pretende fazer reformas em que os benefícios sociais se desidratam, o nível de desemprego torna-se historicamente absurdo, o custo de vida para assalariados e desvalidos pauta-se por paralelismo com a taxa de câmbio em que o dólar faz a alimentação e o gás de cozinha atingirem níveis comparáveis aos de Nova York, embora os salários continuem congelados pelo teto de gastos, obra manhosa de mãos de gatos.

A solução, apregoa o Mandarim, será vender a qualquer custo a prataria da viúva e joga-se em hasta pública de forma azeda e improvisada a Eletrobrás, os Correios, se possível a Caixa Econômica e o Banco do Brasil. Quem sabe, a Petrobras? Colégios tradicionais como o Pedro II ficam à penúria. Universidades federais se deterioram física e profissionalmente. A Amazônia queima e as árvores nobres são exportadas como se fossem boiada. Tudo muito ético, sim senhor. Patriótico.

E a cada dia uma ameaça aqui outra ali, como se tivéssemos um inimigo à beira das fronteiras. Propaga-se, como se estivéssemos na véspera da guerra civil, a compra indiscriminada de armas cada vez de maior calibre. De forma histriônica, promete-se a isenção de responsabilidade a forças que até mesmo com balas de borracha atingem sistematicamente os olhos de cidadãos desarmados. As estatísticas comprovam que no Brasil as taxas de cegueira por balas de borracha são estupidamente maiores do que as dos demais países. Nosso morticínio por balas perdidas é o pavor nas comunidades carentes e até mesmo das calçadas chiques das cidades. E tudo é muito normal. Tão normal como as mortes de mais de 480 mil brasileiros pela Peste.

O Brasil, convenhamos, assumiu o anormal como se fosse samba de breque. Nossas autoridades desfilam a cavalo ou de motocicleta como comitivas de espetáculos circenses em que se cospe fogo e se engolem espadas. Tudo para a maior glória do povo amado, submisso e esfolado, jogado de um lado a outro entre notícias da Peste a nos enlutar e ameaças de autoritarismo por quem deveria buscar a harmonia e o desenvolvimento nacional.

Tem-se do povo uma visão vesga de suas aspirações. Seríamos de uma pasmaceira indolente, provavelmente herdada de nossos antepassados escravizados, quilombolas e mamelucos. Civilização massacrada pelos trópicos, distante dos climas temperados estimulantes do trabalho e da honestidade do fio de barba. Enfim, um país a ser refeito. Inviável numa democracia liberal e portanto sujeito aos ditames de um salvador da Pátria que aqui aporte de chibata em punho. E nisso estamos. Ou pelo menos na véspera disso. Quantas vezes já vimos este filme ao longo de nossas vidas? Só não veem o embuste os oportunistas de sempre.

E, no entanto, o que realmente quer o povo? Uma revolução que nos achincalhe de vez e acabe com nossas pretensões de termos um país soberano, rico, justo e socialmente moderno? Já estamos quase lá.
Se nossos mitômanos se dessem ao ligeiro trabalho de ler a recente pesquisa Oxfam/Datafolha talvez se surpreendessem com o equilíbrio e a serenidade das reivindicações populares. Ali não se menciona o interesse em possuir armas, nem em fechar o Supremo Tribunal Federal. Solicita-se apenas, de forma esmagadoramente majoritária, a redução imediata dos abissais desníveis econômicos regionais e urbanos no país. A proteção da saúde pública gratuita e universal, o acesso a medicamentos, à educação de qualidade inclusive universitária e uma reforma tributária progressiva e redistributiva muito diferente dos projetos em andamento em que se camuflam os atuais mecanismos de injustiça social.

Um exame ainda que superficial da pesquisa Oxfam/Datafolha ressalta a identidade das reivindicações populares com os princípios fundamentais inscritos em nossa Constituição. O povo reafirma seu compromisso com a legalidade constitucional, obviamente contrário à politicagem corrupta, mas profundamente interessada em construir um país muito diverso do que hoje nos é proposto pelas autoridades econômicas e políticas.

Curiosamente, a pesquisa pouco repercutiu na grande imprensa, mas está disponível no site da Oxfam do Brasil. Imprima-a e mande para seu deputado e senador. É um recado civilizado.

O governo instalado em Brasilia, dentre tantos equívocos, cometeu o maior deles ao nos impor uma política econômica e social em absurdo descompasso com o interesse do povo.

A insistência em continuar nesta trilha, inclusive com ameaças de dela não se afastar com o apoio de um “meu Exército”, o que, direta ou indiretamente, pressagia uma cisão fratricida no país, me faz desejar que deliro, que já não julgo bem as coisas, que já não conheço meu próprio país e nele não passo de um insignificante estrangeiro. Um apátrida.

*Embaixador aposentado.