Fio desencapado

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Em julho de 2010, o Brasil enfrentava a Holanda pelas quartas de final da Copa do Mundo, na África do Sul. O primeiro tempo da seleção canarinho mostrou o futebol mais bem jogado até então. O time praticava o fino da bola e o adversário só nos parava a pontapés. Vencendo por 1 a 0, fomos para o intervalo com a sensação de poder ter definido a peleja nos 45 minutos iniciais.

Mas.

Quinze minutos bastaram para a experiente equipe laranja identificar o ponto fraco na engrenagem que amassava os herdeiros do carrossel de 74. Dos pés do jogador que, mais tarde, viria a nomear-se pitbull nos gramados, brotava um fio desencapado a tocar o elétrico gramado sul-africano. O energizado Felipe Melo parecia atuar em voltagem muito acima do que o jogo exigia: atrapalhou o goleiro no gol de empate holandês e quando o Brasil já perdia, seu cérebro acometido por uma descarga excessiva, levou as travas da chuteira às pernas do adversário que o atormentava. Expulsão. Com um jogador a menos, as poucas chances de irmos à prorrogação se esgotaram. Vitória europeia. O Brasil voltou para casa, vida que segue.

Mais de uma década se passou e o mesmo Felipe Melo estava nos gramados. Domingo passado, final de campeonato. Todos perfilados a ouvir o hino nacional, o jogador, diante das câmeras de TV, fez uma “arminha” com a mão, gesto que deve ter arrepiado de emoção os cabelos lisos e bem armados do atual chefe do Palácio do Planalto.

A sisudez no olhar que acompanhava o gesto belicoso anunciava mais excesso de preocupação do que comprometimento com o jogo. A coisa não terminaria bem, ao menos para seu time. Dito e feito. Perdido em campo, o guerreiro do governo federal mal via cor da bola. Chegava atrasado nas jogadas. Tentava, em vão, se impor com uma força que não tinha. E como a crueldade da bola não tem limites, o gol que abriu o placar surgiu de um chute desviado no corpo do desencapado pitbull. 1 a 0. E substituição no intervalo.

O homem da “arminha” na mão, capitão da equipe, não voltou para o jogo, mas teve participação decisiva na derrota. O vareio continuou no segundo tempo e o placar poderia ter sido maior do que os 2 a 0 finais. Mas o resultado pouco importa diante do gesto inoportuno. Ao usar o polegar e o indicador para simular um revólver, Felipe Melo não foi patriota. Ao contrário, usou o hino nacional para transmitir um recado desrespeitoso aos telespectadores que assistiam à partida. Uma vergonha, certamente não compartilhada pela maioria dos seus companheiros e torcedores do time que defende.

Enquanto isso, o mito do fio desencapado defensor de armas continua a buscar aliados com perfil igualmente polêmico. No início de maio, em Alagoas, apareceu ao lado do ex-presidente Fernando Collor, o único em primeiro mandato com avaliação pior do que o atual mandatário nos primeiros dois anos de governo. Com a aproximação, talvez busque algum conforto. Ou alguém que não o deixe só.

Bolsonaro pode ficar tranquilo. Não faltam oportunistas, desavisados ou briguentos armados de plantão para o capitão reformado organizar seu “Incrível Exército de Brancaleone”, como no filme italiano de mesmo nome. Mas se Brancaleone cavalgava com o bando medieval para reivindicar seu feudo, a batalha do governante nacional é nas escurecidas águas governamentais. Quanto mais o comandante guia sua esquadra mar adentro, maior parece a chance de topar com uma corrente que o leve ao meio da tempestade. E se um Titanic de águas tropicais não afunda por topar em icebergs, pode o fazer por incompetência da tripulação. Ao se aproximar da tormenta, convém tirar os aparelhos da tomada. Um fio desencapado pode dar início a um curto-circuito e afundar o barco. Atenção, marujos!

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP