Transformações não começam

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"Não creio no relógio
sem o relojoeiro"
Andrea Bocelli

 

Nos dias que correm, quanto mais diferentes entre si são os que convivem num espaço limitado, mais ideias estarão ali para serem levantadas, cotejadas, tanto mais profícuo será o debate que se estabelecer entre as pessoas.

Estou convencido de que relações sociais jamais se reduzem a simples justaposição de indivíduos. Estar junto significa, naturalmente, participar de uma trama conjunta de influências recíprocas. Como pensar em conjunto?

Quando você tem um propósito claro, e aceita que a solução se desenvolverá no seu próprio tempo, pode então se concentrar em fazer as coisas da forma apropriada no presente. Não ajuda o fato de que instituições dedicadas à resolução de problemas são estabelecidas de forma a restringir a colaboração. Daí encontrarmos dissociação entre o sentido que uma atividade tem para a sociedade e o sentido que ela tem para quem a exerce.

Posso sempre contar com a experiência de ter aprendido com erros cometidos nas tentativas anteriores em que procurei fazer frente aos diversos tipos de problemas. Instituir mecanismos de deliberação e decisão passa pela interrogação inteligente sobre a experiência e o sentido de nossas opções e esperanças. Agindo em consonância com determinados princípios, geramos o maior bem possível para nós e para os que conosco convivem.

Há uma cultura que orienta a percepção do mundo material, daí o ser humano se apropriar desse mundo material de acordo com a lógica dessa cultura. O mundo se apresenta como um feixe de tarefas que podemos organizar segundo planos. O que de fato existe são modos de ação que devem necessariamente ser transmitidos ao conjunto do sistema cultural. Daí a relativização cada vez mais radical de todas as crenças, todos os valores.

O plano concreto da existência encontra-se profundamente afetado. Um número surpreendentemente elevado de indivíduos não sabe como consegue que coisas sejam feitas. A maioria nem sabe que indivíduos diferentes trabalham e se desempenham de formas diversas. Para saber como alguém se desempenha, é crucial saber como aprende. As pessoas sempre podem mudar de parecer ou sentir, e modificar o que estão fazendo ou pensando.

Transformações não começam quando as condições são piores, mas quando passam a ser aperfeiçoadas, por intermédio de processos capazes de valorizar a crítica que vem do outro, porque é a forma mais produtiva de aprender.

Engenheiro, é autor de "Por Inteiro" (Editora Multifoco, 2019)