Escolha pela vida

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É um tremendo fofoqueiro. Assim se referem a Paolo, sem receio algum de que o julgamento chegue aos ouvidos do tal linguarudo chileno de nome italiano, dono de uma pequena mecânica duas ruas abaixo. Fala bem falando mal, o Paolo. Diz meias mentiras que todos já conhecemos. E nas palavras escondidas no sorriso de canto de boca percebe-se a verdade inclusiva.

Que o chinês do mercadinho desliga o freezer nas noites frias, todo mundo sabe. Mas Paolo é o único que diz, em alto e bom portunhol. E ao acrescentar que a dita vendinha lucrou na carne com o sumiço do hamster da vizinha, provoca risadas que desfazem a má impressão do estabelecimento oriental. Isso porque a vizinha nunca teve hamsters. A redondeza evita comprar congelados na quitanda chinesa. Só que a preferência por produtos secos é do China, o hipermercado da avenida que espere. E troque a equipe de segurança. E pare de maltratar os cães que entram na loja.

Se houvesse eleição para síndico da rua, o mecânico ganharia fácil. Sujeito agregador, seu único problema sempre foi a loja fechada durante o expediente. Não tinha jeito de achar o espanhol, como o chamávamos, ao que ele reagia sem o usual bom humor, para nossa diversão. Quando eu precisava trocar a pastilha de freio, era só por WhatsApp mesmo.

Com a pandemia, fiquei meses sem ver o Paolo. Semana passada precisei de um serviço da oficina e enviei mensagem a ele. Nada. Perguntei a alguns vizinhos, que tampouco o viram nos últimos tempos. Estaria no Chile, sua terra natal, onde, até o início desta semana, quase 50% da população havia tomado ao menos a primeira dose da vacina contra a covid-19? Naquele país da América do Sul, 40% da gente já se imunizou totalmente. Aqui, terra onde o mecânico veio fazer a vida, menos de 10% da população tomou a segunda dose.

Talvez, neste momento, a ironia inclusiva de Paolo se encaixe mais no seu país de origem, onde a vida tem mais valor e, quem sabe, mais humor. No Brasil, não há espaço para ironias. Mente-se descaradamente, sem rodeios nem inteligência. Como o ex-ministro Eduardo Pazuello, em depoimento a senadores na CPI da Covid, que afirmou nunca ter recebido ordens do seu então chefe planaltino para não comprar a Coronavac, quando há vídeos mostrando o contrário. Ou o patético ex-secretário da Presidência Fábio Wajngarten que, entre outras balelas, negou ter criticado a gestão do próprio Pazuello.

Mentiras orquestradas com o objetivo de prolongar a vida útil do governo. E, quem sabe, chegar à eleição de 2022 com alguma chance. E quando as mentiras não bastam, o recurso é o ataque declarado, como fez o senador 01 ao distribuir patadas no relator Renan Calheiros e alardear o feito no Twitter.

Fica difícil acompanhar a situação política do país sem um antiácido para abrandar as dores de estômago. Aos que não sentem as tripas digestivas, pode ser efeito da apatia. Uma malemolência que disfarça o ódio, manifesto, no máximo, em postagens nas redes sociais e aplacado por remédios antidepressivos. Mais, talvez, no Brasil, do que no Chile. Ou na China.

Numa época em que a morte abocanha as noites de sono e a saúde econômica provoca pesadelos, Paolo vê no país onde nasceu a chance de sobreviver. Assim como o China do mercadinho. Não sei se conseguiram voltar, provavelmente estão aqui. Mas neste momento, em que se avizinha uma terceira onda de covid, se pudessem escolher, de certo estariam em um país que privilegia a vida.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP