Janela quebrada

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A coisa ficou feia quando ouvi a segunda pancada. Seca, de tombo derradeiro, seguida de silêncio. Até aquele momento, o barulho vinha do futebol: um xingamento daqui, uma resposta dali e, no final, todos se escondiam atrás das cortinas das salas. Os gritos de gol se avolumavam, o jogo devia estar bom. Olhei para o relógio, impaciente. Quando termina? Aquilo atrapalhava minha série na TV. Mas o que me incomodava, realmente, era lembrar, a cada comemoração efusiva, da lamentável situação do meu time.

Eu havia jogado a toalha há tempos. Torcia por W.O. duplo e para cancelarem o campeonato em época de pandemia. Um absurdo. Sentado no sofá à mercê da comemoração alheia, minha inveja era abafada pela certeza de não precisar ir ao hospital por causa de um ataque cardíaco, bola na trave ou pênalti para fora. Assistia a uma comédia “água com açúcar” enquanto os pobres torcedores vencedores viam seus times correrem atrás da bola num estádio de arquibancada vazia. Aos diabos! Aumentei o volume da TV.

Não deu dois minutos e veio a gritaria. Era da casa de trás: o morador comemorava um provável placar favorável. O falatório deveria cruzar o espaço aéreo da minha residência e se alojar nos ouvidos do vizinho ao lado, torcedor do time adversário. Até aí, nada de novo. Mas quando ouvi um zumbido de rojão cruzar o quintal percebi que a cuíca ia roncar. A primeira pancada foi na janela. Som de estilhaços. Havia uma guerra declarada e minha casa era a fronteira. “Se for pra se matar vai para a rua, pô”, alardeei aos muros fronteiriços. Os vizinhos se recolheram. Silêncio.

Fui o último a falar, essa minha vingança futebolística, a única possível. Eu saboreava a quietude estrangeira. Sorvi um gole de vodca, aguardei o líquido esquentar as reconfortadas entranhas e me ajeitei no sofá. Esqueci do jogo. Pouco importava. Os torcedores adversários foram derrotados.

Não se passaram dois minutos e notei o vizinho da janela quebrada abrindo a porta lateral da sua casa. Seu andar arrastava os cacos de vidro no chão. Deve ter chutado um, dois deles. Foi quando ouvi a segunda pancada, seca, de corpo caído. Mentalmente, visualizei o sujeito no chão, desmaiado e esparramado no piso de ladrilho. Silêncio, novamente, durante o qual vibrei pela possível queda – afinal, era o folgado que deixava o seu saco de lixo na frente do meu portão.

Quando me dei conta de que a coisa podia ser séria, fui até o muro, escalei a parede com alguma dificuldade e vi o pé de uma sandália estatelado no chão. Alguns cacos de vidro velavam a pobre carcaça de borracha. Nenhum corpo à vista, para meu alívio e certa decepção recalcada. Pouco depois do incidente, ouvi o motor do carro vizinho. Foi à farmácia, pensei. Comprar uns curativos. Esbocei um sorriso.

No dia seguinte, acordei cedo para levar o lixo à rua. Ao sair, vi o tal vizinho carregando o seu. Como não costuma usar máscara para sair de casa, pude ver alguns curativos no seu rosto. Nada grave, concluí. Ele vinha em minha direção. Quando percebeu, tentou disfarçar: sem graça, deu rápida meia-volta, deixou cair o saco na frente da sua garagem e apertou os passos. “Bom dia”, eu disse, com alguma ironia. Ele respondeu com um tímido aceno. Antes de entrar, cruzou com um desconhecido na calçada, que o alertou para o uso de máscara.

Não o vejo há alguns dias. Esta semana, seu time jogou, ganhou e não percebi um pio sequer do lado de lá. Seus gritos de “mito” também calaram. Sei que está em casa, ouço o motor de carro ligado toda manhã. Embora não nos cruzemos, tenho para mim que aquele não sai mais sem usar máscara. Menos por consciência do que por vergonha. Já é um começo.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP