Itamar não deixa sucessor e oligarquia toma conta da política em Juiz de Fora

Se o Rio tem o filho de Sérgio Cabral, os filhos do Picciani, os filhos de Bolsonaro, a filha de Eduardo Cunha, herdeiros dos votos de seus pais, que comandam ou vão comandar a política fluminense, em Minas Gerais, tão próxima, as coisas não são diferentes. Lá, como aqui, o voto ganha foros de hereditariedade. Nesse sentido, não seria demais dizer que, para se obter um bom exemplo do que é a política, com as conhecidas manhas, basta ir à cidade de Juiz de Fora.

Não apenas na política, mas em quase tudo, os cariocas e aqueles mineiros, têm histórica intimidade. Dizem as más línguas que eles são a versão brejeira do carioca, sem que para isso falte explicação histórica: no Império e na Velha República era muito mais fácil o juiz-forano ver o mar do que ver o sertão. A diligência, a estrada macadamizada, a ferrovia, o telégrafo, a cultura estavam de costas para  o resto de Minas. A terra de Pedro Nava cariocarizou-se. Francisco Iglesias explicou: a cidade, ao contrário do resto do seu estado, não tinha origem mineratória. Plantava café e criava gado.

Outro fenômeno que não escapa naquelas plagas é o parentesco, poderoso cultivador de votos. O sobrenome na certidão de nascimento, naqueles idos e até em tempos recentes, era meio caminho andado para o bom sucesso na eleição. João Penido e Antônio Carlos eram primos em primeiro grau. Penidos, pai e filho, mandavam na política republicana. Outros grandes chefes, Francisco Valadares e Francisco Bernardino, concunhados, casados com irmãs de Oscar Vidal, poderoso agente executivo, que batia de frente com os trabalhadores. Governaram a cidade, por 15 anos, os cafeicultores e financistas José Procópio Teixeira e Procópio Filho. 

Herança do voto 

O poder familiar avançou, depois, nos anos 60, quando o deputado Sílvio Abreu, autor do primeiro projeto para tornar obrigatório o uso do cinto de segurança nos veículos, saiu de cena, mas elegeu o filho, Sílvio Abreu Júnior, convidado para assumir a Secretaria de Justiça do governador Tancredo Neves. Uma exceção, pois Tancredo não tinha maior apreço pelos políticos locais. Achava-os limitados, e os inscrevia numa espécie de jardim de infância. Em Itamar Franco, o defeito que via era o temperamento. “Guardava ódio na geladeira, para consumir no momento certo”...

Caso singular em família ilustre foi o dos irmãos gêmeos Osmar e Oscar Surerus, vereador e candidato a vice-prefeito. Parecidíssimos, houve ocasião em que um substituía o outro nos palanques. Só os mais próximos notavam o embuste. 

Se a herança material é passada, por lei, de pai para filho, a  herança do voto também fazia e, continua fazendo, parte do patrimônio de famílias encasteladas e donas do poder em Juiz de Fora. Não foi diferente o que continuou acontecendo nos últimos 40 anos, na quarta maior cidade mineira: o voto tornou-se hereditário, passando de pai para filho. Uma exceção, só para confirmar a regra: o engenheiro Itamar Franco que, sem possuir sobrenome tradicional da cidade, portanto, sem fazer parte da oligarquia política para herdar votos familiares, se elegeu prefeito, senador, governador e chegou a presidente da República. E, não deixou, também,  herdeiro para dar continuidade à sua vitoriosa trajetória. Teve duas filhas, que jamais participaram da política. Prezam sua privacidade e, sequer comentam, publicamente, a vida do pai. E, certamente, ele nunca procurou incentivá-las para acompanhá-lo. 

 Juiz de Fora foi considerada, no início do século passado, como a “Manchester Mineira”.  Palavras de Rui Barbosa, ao visitá-la, em 1910, quando sentiu a vida febril de chaminés de indústrias. E, por esse motivo, a cidade também pôde exercer forte influência no cenário político. Mas foi com Itamar Franco, alçado à presidência da República, quando, ao implantar o Plano Real, acabou com a hiperinflação no país, que a cidade ganhou projeção na política brasileira.  Era de lá que Itamar projetava suas ideias. E foi ali que buscou nomes para o núcleo duro de seu governo, formado por velhos e fiéis amigos de toda a vida; todos nascidos e/ou residentes em Juiz de Fora. No seu ministério, esses amigos ocuparam seis cadeiras. Chamou-se a esse grupo de “república do pão de queijo”, que inicialmente o desgostava, mas acabou assimilando. 

Amigos e filhos

O núcleo era formado por Djalma Morais, ex-coronel do Exército, engenheiro na área de comunicações. Sempre o acompanhou, da prefeitura de Juiz de Fora até o Ministério das Comunicações; e na presidência da Cemig, quando Itamar foi governador de Minas. Henrique Hargreaves, amigo de juventude, foi Chefe da Casa Civil. Professor Murilo Hinguel, Ministro da Educação. E, Marcelo Siqueira, engenheiro, o veterano entre os amigos, presidiu Furnas, Banco de Crédito Real e Copasa.

Sem herdeiros para substituí-lo na carreira, os amigos ou eventuais adversários aproveitaram ocasião para suprir essa ausência, abrindo espaço na política local. Tarcísio Delgado, prefeito 14 anos em sucessivos mandato, deputado federal, algumas vezes trilhou caminhos diferentes de Itamar, sem nunca terem sido inimigos ferozes. Mas, em política, amizade e tolerância são meramente circunstanciais, mesmo quando ambos estavam no PMDB. Seria exagero dizer que os dois, exercendo liderança na cidade, não se suportavam. Mas também nunca foram de agrados mútuos. 

Delgado, mesmo estando fora da prefeitura, mantinha prestígio, indicando amigos de seu grupo para ocupar cargos na administração municipal. Até mesmo a filha Érica dirigiu a Fundação Cultural na administração de seu “adversário”, o prefeito Alberto Bejani, cassado e preso por corrupção. Seu filho, Júlio Delgado, deputado federal por três mandatos, tornou-se o herdeiro político, sem exercer outra profissão ou atividade que não fosse a política. Continua sendo candidato.

Outro da oligarquia que domina o cenário político de Juiz de Fora é Marcus Pestana, atual secretário-geral do PSDB. Como o colega Júlio, seu pai, Agostinho Pestana, também foi  prefeito. Sem ter tido outra profissão, além de professor de Economia, Pestana parte para sua quarta eleição, tendo como referência o núcleo duro do senador Aécio Neves, que o nomeou secretário de Saúde em suas duas passagens pelo governo de Minas. Com prestígio e poder, contribuiu para a eleição do deputado Antônio Jorge, que também foi titular da pasta durante os governos de Antonio Anastasia.

Outro nome de destaque local é Custódio de Mattos, também do núcleo de Aécio. Prefeito da cidade em três mandatos, foi acusado de receber dinheiro ilegal da famosa “lista de Furnas”, com cheque depositado em sua conta bancária. Sua última passagem pela administração foi considerada o marco da falência das finanças públicas municipais. Em seu último mandato,  em convênio com Estado, iniciou a construção do Hospital Regional, onde foram consumidos mais de R$ 50 milhões, e, hoje, a obra não passa de um esqueleto abandonado. Foi com apoio e propaganda política do “criador do choque de gestão”, o ex-governador Antonio Anastasia, que o dinheiro público do hospital regional foi para o lixo. 

Mas a acusação mais grave que pesa sobre aquela administração foi a transferência, sem licitação, da coleta de lixo da cidade para a empreiteira Queiroz Galvão, que teve início no governo Alberto Bejani e, ratificada por Custódio Mattos. Em menos de 30 dias, a empreiteira, já condenada por Sergio Moro,  e utilizando a brecha jurídica da “urgência”, mecanismo que a empreiteira utiliza para assumir a coleta de lixo em todos os municípios onde atua , triplicou o valor da tonelada coletada na cidade. Certamente, a operação lava-jato quando chegar a essa área, encontrará um dos maiores escândalos de corrupção da história de Juiz de Fora, assim como em todos os municípios onde a Queiroz Galvão tomou de assalto o monopólio do setor.

Como os demais líderes de Juiz de Fora, Custódio nunca teve outra atividade que não fosse a política. E, seguindo a tradição, seu filho, Rodrigo Mattos, segue o exemplo do pai, pois, não tendo outra atividade para se sustentar, entrou para a política, e já está em seu terceiro mandato como vereador.

Margarida Salomão, deputada federal pelo PT, vai tentar seu terceiro mandato. Não recebeu, diretamente, herança eleitoral, mas seu pai, professor Gilson Salomão, foi reitor da Universidade Federal  – UFJF. Alí, sim, ela herdou prestígio e votos, sendo eleita para a mesma reitoria antes ocupada pelo pai.

Bruno Siqueira é das raras exceções do “filhotismo”. Mesmo sendo filho do ex-deputado Marcelo Siqueira, Bruno decidiu deixar a profissão de engenheiro para ingressar na política com os próprios pés. Amigo de Itamar Franco, elegeu-se prefeito quando o ex-presidente já havia falecido.

Caso extraordinário na política local foi Alberto Bejani. Tinha como profissão a de vendedor e, posteriormente, radialista. Filho de São Gonçalo-RJ, com programas de cunho populista, sem qualquer tradição na cidade, desbancou a oligarquia local e foi duas vezes eleito prefeito, sendo que, na última, com imprescindível apoio do PT municipal e nacional. Bejani foi cassado e preso por corrupção.

Como se vê, de Juiz de Fora ao Rio, de Cabral à Aécio, do PT ao PSDB e PMDB, nada é diferente. O voto é livre mas só vale para eleger pai e filho. Salvo o caso de Itamar Augusto Cautiero Franco. (Com colaboração de Juiz de Fora)