Operação contra doleiros no Brasil e no exterior prende 33

Alguns dos investigados fazem parte do esquema do ex-governador Cabral

Na maior operação montada nos últimos 15 anos no Brasil para combater a lavagem de dinheiro, segundo a Procuradoria da República no Rio, 33 mandados de prisão contra doleiros foram cumpridos no País e no Uruguai. A Operação "Câmbio, desligo" foi deflagrada nesta quinta-feira, 3, e teve como alvos nomes envolvidos no esquema atribuído ao ex-governador Sergio Cabral (MDB). A PF não participou da divulgação dessa vez, o que causou estranhamento.

Foram 13 mandados cumpridos no Rio, oito em São Paulo, cinco no Rio Grande do Sul, dois em Minas e dois no Distrito Federal. Três pessoas foram presas no Uruguai. Um dos principais alvos, o doleiro Dario Messer, está sendo procurado no exterior. Ele tem cidadanias brasileira e paraguaia. Ainda restam 20 pessoas a serem presas.

As investigações mostraram que os doleiros presos montaram uma rede complexa de crédito e débito de reais e débitos para lavar o dinheiro sujo de seus clientes. Entre eles, Cabral e as empresas JBS e Odebrecht, conforme já mostraram as investigações.

Possivelmente outros políticos e empresas serão implicados futuramente, disseram procuradores, uma vez que há "centenas" ou "milhares" de contas no exterior a serem identificadas. Segundo as investigações, foi movimentado mais de US$ 1,6 bilhão entre os anos de 2008 e 2017. Pelo menos cerca de US$ 100 milhões seriam de Cabral.

Os dois delatores do esquema, Vinicius Claret e Cláudio Barboza, serão soltos nesta quinta-feira. Eles ficaram presos por 1 ano e 2 meses e agora terão outras restrições de liberdade previstas no acordo que firmaram.

Coletiva

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Segundo os procuradores, que deram entrevista coletiva no fim da manhã, foi montada uma complexa rede de doleiros com sede no Brasil, mas, a partir de 2003, com o aumento da fiscalização no país, alguns doleiros se fixaram no Uruguai. A rede operava com um sistema informatizado próprio, o Bankdrop, além de um esquema de registro de operações, chamado ST, no qual constavam os débitos e créditos de cada conta.

A rede movimentou cerca de R$ 1 milhão por dia, entre os anos de 2010 e 2016, em um volume total que passou de US$ 1,6 bilhão no período. Foram identificadas mais de 3 mil empresas offshores relacionadas ao grupo em 52 países. “Esses doleiros acionavam outros doleiros, o que permitia que as operações fossem feitas compensando o dinheiro em espécie que era entregue no Brasil pela organização criminosa do Sérgio Cabral, com os dólares que eram depositados em centenas de contas no exterior”, acrescentou El Hage.

De acordo com os procuradores, o valor referente ao esquema de Sérgio Cabral nessa rede seria de US$ 100 milhões. As investigações continuam para identificar quem são os responsáveis pelas offshores beneficiadas pelo esquema. Na operação de hoje, foram identificados operadores financeiros e doleiros ligados a outros esquemas de evasão de divisas, como o do Banestado, do Transalão do PSDB de São Paulo, de PC Farias, da Odebrecht e da JBS, acrescentaram os procuradores.

“Com isso, vemos como as organizações se interligam e entrelaçam. Na operação de hoje, temos os doleiros da JBS, Paco e Raul, que acabaram de ser presos no Uruguai. Tem também o operador financeiro do Artur Pinheiro Machado, que atuava com desvios de fundos de pensão, os irmãos Chebar, que atuavam com o Sérgio Cabral, a família Matalon, em São Paulo, que atua há décadas. E esperamos que, com o decorrer das investigações, surjam outros esquemas criminosos", ressaltaram os procuradores.

Ausência da PF

Os procuradores da República Eduardo El Hage, coordenador da Lava Jato no Rio, e Rodrigo Timóteo comentaram a ausência da PF na entrevista coletiva em que foram explicados os caminhos das investigações até os doleiros. A maior parte dessas entrevistas se dá no prédio da PF, na zona portuária do Rio; a desta quinta-feira foi na sede da Procuradoria, na mesma região central.

"Tivemos a colaboração da PF do Rio, SP, DF, RS e MG e a Receita Federal ajudando a analisar os dados. É um trabalho nosso em conjunto com todos eles. Não tem por que alfinetar (a PF). É a decisão de cada órgão. Tomamos a nossa. Cabe vocês perguntarem a eles", disse Timóteo aos jornalistas.

Surpreendido pela ausência - uma decisão da PF em Brasília, e não da superintendência no Rio - El Hage afirmou que as coletivas são como prestações de contas de servidores públicos à sociedade. A PF não explicou ainda por que não estava presente na divulgação dos resultados da operação.

Segundo El Hage, a "Câmbio, desligo" foi a maior contra lavagem de dinheiro desde a do Banestado, deflagrada em 2003, e que teve como alvo o doleiro Alberto Yousef. Dela se originam as investigações que culminaram na Lava Jato, iniciada em 2014.

Dario Messer

Principal alvo da operação, Dario Messer é um antigo doleiro do Rio de Janeiro que após o caso Banestado - maior escândalo de lavagem de dinheiro da história do Brasil - mudou sua banca para o Uruguai e para o Paraguai. 

Messer seria o nome por trás do operador Vincius Claret, o Juca Bala, apontado pela Lava Jato do Rio de Janeiro como um dos responsáveis por lavar o dinheiro desviado pelo grupo do ex-governador Sergio Cabral (MDB). Na delação dos executivos da Odebrecht, Juca Bala é apontado como um laranja de Messer no Uruguai.

Na primeira delação de Alberto Youssef, em 2004, o doleiro aponta Messer como um dos "doleiros de doleiros", responsável por dar "cobertura de mercado" a outros operadores financeiros menores que atuavam no dólar-cabo e em outras transações para lavagem de dinheiro.

Em um depoimento dado em 2004 ao juiz Sergio Moro e aos procuradores da força-tarefa CC5, Youssef disse que naquela época eram poucos "doleiros de doleiros" no Brasil e que um deles, além do próprio Youssef, era Messer.

"Bom, um era eu, a Tupi Câmbios, a Acaray, Câmbio Real, Sílvio Anspach, o Messer do Rio, o Rui Leite e o Armando Santoni. O Antônio Pires, eu nunca negociei com ele, então o meu relacionamento com ele era praticamente zero, eu conheço de nome, e sei com quem ele operava, mas nunca assim", disse Youssef.

Operador de uma das contas da Beacon Hill - conta-ônibus no JP Morgan Chase, de Nova York, no qual vários doleiros brasileiros mantinham sub-contas, Messer foi um dos alvos da operação Farol da Colina, sob tutela do até então desconhecido juiz Sergio Moro. Somente na Beacon Hill, as autoridades encontraram movimentações de US$ 13 bilhões provenientes de brasileiros.

Quando os investigadores do Banestado chegaram a Messer, ele se mudou, segundo Youssef, para o Uruguai. "A mesa do Messer foi para o Uruguai, eles estão trabalhando lá com sistema de call back, o Juan Miguel que é do Integracion também está no Uruguai, também estão trabalhando com o sistema call back. Sobrou o pessoal do Rio que está lá, estão quebrados, mas ainda continuam no mercado operando um pouco", afirmou o doleiro que deu origem à Lava Jato.