Quase dois milhões sem água

Chefe do Laboratório de Hidrologia da UFRJ fala do desafio de universalizar abastecimento no Rio

No Dia Mundial da Água, celebrado hoje, há pouco o que se comemorar no Estado do Rio de Janeiro. Os rios da Região Metropolitana estão poluídos, 15% dessa população não têm água encanada — percentual alto, levando-se em conta que a energia elétrica atinge no Sudeste 99,7% das casas — e o desperdício chega a 16 mil litros de água tratada por segundo, capazes de encher uma piscina olímpica em menos de três minutos. Em entrevista ao “Jornal do Brasil”, o professor Paulo Canedo, coordenador do Laboratório de Hidrologia da Coppe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, fala dos desafios que temos pela frente.

Com a abundância de rios no país, por que ainda temos tantas casas sofrendo com falta de água em vários estados, incluindo o Rio de Janeiro? 

O Brasil tem 12% da água bruta do mundo. Todo o país é muito bem servido de água, com exceção do semiárido brasileiro. Com o Estado do Rio de Janeiro, não é diferente. Mas a assistência de água potável deixa muito a desejar. Hoje, só 85% dos lares brasileiros estão conectados à rede de água potável. E eu digo só. Parece muito, mas é pouco. Devia ser acima de 95%. As pessoas têm acesso à água bruta, para o lazer, mas não para beber. E isso precisa ser mudado. Se temos mais de 95% dos lares brasileiros com acesso à energia elétrica, por que não temos o mesmo percentual com acesso à água potável? O que é mais importante, a energia elétrica ou a água? Luz elétrica é menos importante do que a água. E o atendimento pela rede de energia elétrica no Sudeste atinge 99,7%. Apesar de termos uma grande oferta de água bruta, não temos uma assistência de água potável para a população. 

Quem são os mais afetados com essa distribuição de água potável? 

Sem dúvida, os que vivem na periferia dos grandes centros urbanos e nas áreas rurais.  

Qual é o uso de maior demanda de água do Rio? 

O Rio de Janeiro não tem potenciais agrícolas nem grandes produções de energia. A maior demanda de água do Rio de Janeiro é pelo consumo doméstico, o que corresponde a cerca de 15% da produção de água do estado. Todo o Grande Rio bebe água oriunda do Rio Paraíba do Sul. Isso poderia ser diferente. Poderíamos retirar a água que usamos de um rio mais próximo, já que vivemos num estado que tem muitos rios. Mas, por conta da enorme poluição dos córregos, isso é impossível.

Qual a maior consequência da poluição dos nossos rios? 

A principal é o valor da água. Se buscássemos a água de um rio mais próximo, pagaríamos menos por ela. Nossos rios urbanos estão completamente abandonados e deteriorados. E somos nós mesmos que pagamos o preço por isso. 

E sobre a qualidade da água que recebemos? 

O Ministério da Saúde certifica a qualidade da água que recebemos em casa. A água que chega na nossa torneira é de boa qualidade. Já as garrafas de água mineral são certificadas pelo Ministério de Minas e Energia. O grande problema está na água vendida nos galões azuis e vermelhos. Nenhum órgão os fiscaliza. Você pode ter uma água de boa qualidade, como também pode ter uma água de péssima qualidade, porque não existe um órgão responsável por essa fiscalização.   

Há diversas reclamações sobre a água ter um forte sabor de cloro. Corremos o risco de estarmos nos contaminando ao ingerir a água fornecida no Rio? 

Repito que a água fornecida no Rio é de boa qualidade. O forte sabor do cloro é uma questão residual. Usado para  oxidar matéria orgânica, pode ser inseto, bactéria... Água clorada em excesso pode ser desagradável. Pode até fazer um pouco mal, porque estraga um pouco a sua flora intestinal. Mas não tem nenhum patogênico grave. Nos padrões brasileiros, a água é pra ser clorada. Aliás, é fundamental por conta do armazenamento que se faz dela nas caixas d’água. O Brasil é o único lugar do mundo onde existe caixa d’água.

Como assim? 

Desde que o Rio de Janeiro era a capital, sua enorme área alagadiça dificultava a distribuição de água. Dificultava a implantação das redes de distribuição. Então, os pequenos rios não eram capazes de atender a todos na hora da maior demanda. Então, surgiu a ideia de cada residência promover o seu armazenamento. Isso passou para outros estados. Mas as caixas d’água atraem muitas baratas. 

Por quê?

 Qualquer caixa d’água terá barata. Pode ser a caixa d’água do Vaticano, que vai ter barata. A barata gosta de lugar úmido, quente e escuro. É o melhor lugar pra ela. Aliás, não só por isso as caixas d’água não são limpas, embora exista essa exigência. É o tipo de coisa que ninguém fiscaliza. Então, não temos como concluir que a caixa d’água brasileira seja limpa. Se você abrir a caixa d’água do seu prédio, vai levar um grande susto. Vai ter centenas de baratas.

Além do problema das caixas d’água, temos um outro que é o fornecimento de água em diversos pontos do estado. Quantas pessoas hoje não recebem água em casa?

Hoje, 15% da população da Região Metropolitana do Rio não recebem água potável. E não é pouca coisa, já que essa região tem população de 12 milhões de pessoas. 

O que falta para universalizarmos a oferta de água potável no Estado do Rio? 

Só para completarmos o encanamento para toda a área da Região Metropolitana do Rio, o investimento necessário é de R$ 6 bilhões. Esse valor seria só para os canos e mão de obra. Mas, para garantirmos que a água chegue na casa das pessoas, temos que investir também em elevatórias e caixas d’água. 

Além da problemática da falta d’água para uma parcela da população, o Rio de Janeiro sofre com desperdício? 

Sim, o desperdício no Rio é muito grande. Segundo dados oficiais da própria Cedae, o Rio desperdiça 32% da água tratada, cerca de 16 mil litros por segundo. Isso é inaceitável, são muitos vazamentos. Mas com certeza esse percentual é maior. Vira e mexe temos uma tubulação estourada. Nossos canos são muito velhos e não se respeita a vida útil deles, como em outros países. Deixam o cano lá até estragar, em vez de trocá-lo ao fim de sua vida útil e evitar desperdícios. 

Neste Dia Mundial da Água, qual seria o maior desafio para a questão da água no Rio de Janeiro? 

No Brasil inteiro, o inimigo número um da população é a poluição hídrica. Nossos rios estão muito poluídos. Se eu fosse administrador público, só me preocuparia com isso. É muito grave. 

Por quais rios o senhor acha que o poder público deveria começar? 

Todos. Estão todos muito ruins. Vou começar pelo Rio Carioca porque dá nome à cidade. Todos estão podres. E essa questão caiu num descaso sem fim