A corrupção, o descrédito e a vergonha de ser brasileiro

Cenário de desolação e abatimento na sociedade lança cenário imprevisível para eleição de 2018

A grave crise política e econômica que assola o país não causa apenas o descrédito e o desemprego. Atinge sobretudo o ânimo dos brasileiros e é a grande causa da desesperança que afeta a nação. Especialistas entrevistados pelo JB comentaram o cenário nacional e projetaram as expectativas para o futuro, principalmente com relação às eleições de 2018. “Chegamos a um ápice em 2017. É difícil piorar. Temos uma gama enorme de políticos envolvidos em corrupção, com 13% do eleitorado desempregado. Isso gera na população um desânimo e uma vontade grande até de deixar o país”, avalia o professor de Ciência Política da Universidade Veiga de Almeida, Guilherme Carvalhido. 

Recente pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha revelou que 34% dos entrevistados sentem vergonha de serem brasileiros, o que corresponde a um terço da população. Ainda segundo a análise, nunca houve tanta gente com mais vergonha que orgulho de ser brasileiro. “Diariamente o povo vem sendo submetido a esquemas de corrupção, intermináveis em todos os níveis. Não parece haver nenhuma proposta para mudar isso”, afirmou a socióloga e professora da Uerj, Alba Zaluar.

Para explicar esse quadro, Zaluar ressaltou que um motivador importante para o resultado da pesquisa é a desilusão enfrentada pela população após a revelação do envolvimento de grandes figuras da política brasileira com crimes de corrupção. “Temos a destruição da imagem de muitos políticos que fizeram parte de um projeto que era considerado salvador, totalmente minado pela corrupção.”

Já para Carvalhido, esses números vieram acompanhando o crescimento da crise econômica, além da política. “O que pode reduzir o quadro de desesperança no país é a credibilidade econômica. A crise nessa área contribui para o aumento da violência e sensação de insegurança, que por sua vez diminui o orgulho de ser brasileiro.”

De acordo com a professora da Uerj, esse cenário contribui para a ascensão nas eleições de políticas opressivas, em um momento no qual a sociedade teme o aumento da violência, buscando apressadamente uma solução definitiva e efetiva. “Essa situação de insegurança no caso do Rio, por exemplo, com o governo estadual sem dinheiro, em que as pessoas têm muito medo da violência, tudo isso torna o estado um terreno fértil para políticas autoritárias de direita”, explicou, acrescentando que esse sentimento deve se espalhar para um âmbito nacional.

Outra pesquisa do Instituto Datafolha divulgada esta semana destacou que o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) já aparece disputando o segundo lugar nas intenções de voto para presidente, com 15%. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva segue liderando a consulta, com 30% em média da preferência do eleitorado.

Mesmo manifestando preocupação com as eleições de 2018, Zaluar defende: “Deveriam ser realizadas eleições diretas agora. Eleições para governador e presidente deveriam ser realizadas este ano”, afirmou, com o complemento de que, dessa forma, a sociedade se reaproximaria da classe política, evitando uma crise de representatividade ainda maior e com consequências inimagináveis.

Soluções

Ainda de acordo com a pesquisa do Datafolha, a parcela de 34% dos que sentem vergonha de serem brasileiros vem crescendo desde o fim de 2014, e é quase o quádruplo dos 9% no fim de 2010, o menor valor registrado. Para Carvalhido, essa diferença crescente nos últimos sete anos é explicada principalmente pela situação econômica. “Em 2010, tínhamos um quadro economicamente bom, promissor. As acusações de corrupção não eram tão fortes - com o Mensalão ficando para trás - e a imagem do presidente Lula era fortíssima.”

Alba Zaluar concorda. “O presidente vivia um ápice de popularidade, o Brasil crescia muito bem, e esse crescimento era refletido no quadro internacional. Hoje, já não há essa perspectiva, não há essa projeção.”

Para ela, a valorização da produção de conhecimento é fundamental para a recuperação da autoestima do brasileiro. “Tanta coisa precisa ser reformada, temos que mudar a maneira de montar os partidos políticos, as eleições… Temos que deixar que prevaleça o conhecimento, o capital social, para exercermos essas mudanças.”

No entanto, a professora manifestou otimismo em relação aos resultados da pesquisa. “São 34%, apenas um terço da população. Ainda tem muita gente que tem orgulho e acredita no Brasil”. E concluiu: “As pessoas culpam a cultura brasileira pela sua classe política, mas o povo não tem nada a ver com isso. O brasileiro precisa ter a consciência de que ainda é um povo formidável, simpático e acolhedor.”

* do projeto de estágio do JB