Ameaça de força-tarefa pode ter sido reação de 'cabeça quente', diz Janot

Procurador-geral também critica tentativa de Renan Calheiros de votar o projeto

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, comentou sobre o discurso dos procuradores da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, de ameaçar renunciar à investigação se o pacote de medidas anticorrupção votado na Câmara for sancionado. Para o chefe do Ministério Público Federal, a declaração dos procuradores pode ter sido uma reação de "cabeça quente". 

"A resposta tem que ser institucional e profissional", afirmou Janot em entrevista por telefone à Folha, durante viagem que realiza na China

O procurador-geral também se disse "estupefato" com a atitude da Câmara dos Deputados de alterar o projeto proposto pelo Ministério Público. O mesmo foi dito em vídeo encaminhado à imprensa, em que ele afirma ser favorável, sim, "a uma lei mais moderna", mas não a um projeto como o que está sendo costurado pelo Congresso, "de forma assaltada, imperfeita". 

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Janot comentou ainda, com o jornal paulista e no vídeo gravado na China, sobre a tentativa derrotada do presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL) de votar o projeto na noite passada. "Nem o Bolt [Usain Bolt, velocista jamaicano] teria tanta velocidade para lançar uma proposta. Não sei qual o espírito de Bolt que foi incorporado pelo presidente do Senado", comentou com a Folha.

O procurador-geral diz no vídeo que não que crer que o presidente de um poder tenha abusado do poder para "obter alguma vantagem para si próprio". "Continuo acreditando nas instituições brasileiras."

"Eu, enquanto cidadão e servidor público, quero uma lei de abuso de autoridade. Duvido que algum membro do Ministério Público não queira essa lei. Agora, a forma atropelada como tem sido conduzida a discussão levanta no mínimo alguma suspeita. Por que essa pressa toda?", questiona na entrevista.

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