Crise: a dura rotina dos jovens em busca de uma oportunidade de emprego

Antes do sol nascer, centenas de pessoas deixam seus lares para buscar uma vaga no Centro do Rio

Quando Cíntia Souza saiu de sua casa no bairro de Anchieta, às 5h30, o sol ainda nascia. Para chegar ao Centro do Rio de Janeiro - onde participaria de um processo seletivo para trabalhar em uma loja de departamentos - precisou pegar dois transportes, enfrentou trem e ônibus lotados. Quando chegou ao destino na Rua Uruguaiana, antes das 9h, ficou de pé na fila para pegar uma senha.

Seu teste e entrevista, de acordo com o número no papel, seriam apenas às 14h. Cíntia é apenas uma entre as 12 milhões de pessoas desempregadas no Brasil: 11,8% da população, de acordo com o IBGE.

Dentre os 160 candidatos que apareceram por causa do anúncio colocado pela loja nas redes sociais, ela faz parte da terceira leva de pessoas, os 40 que entrariam depois do horário de almoço. Aos 26 anos, separada, Cíntia agora está sentada no chão, encostada na porta de metal de uma loja fechada, uma entre muitos outros estabelecimentos fechados na rua, em pleno horário comercial. Ela aguarda e deseja que esse longo trajeto passe a fazer parte de sua rotina diária, caso conquiste a vaga de fiscal de loja.

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Há três meses procurando emprego, Cíntia tem auxílio da família e faz manicure em casa para conseguir alguma renda. “Onde moro, tem muita gente na mesma situação. Pessoal saindo do bairro para procurar emprego longe.” Apesar da dificuldade, Cíntia se mostra otimista. “Tenho toda a esperança desse mundo de conseguir emprego hoje. Mas estou um pouco nervosa”, revela.

Ao menos Cíntia já trabalhou de carteira assinada em algum momento. Não é o caso de Milena de Queiroz. A jovem de 18 anos se formou no ensino médio no fim de 2015, e procura emprego desde janeiro deste ano. Milena, que saiu de Duque de Caxias às 5h40, faz um curso profissionalizante de informática. Para ela, o emprego na loja seria o pontapé inicial de sua carreira. O teste que eles vão realizar à tarde envolve questões de português, matemática, raciocínio lógico e conhecimentos gerais.

Com o conhecimento de informática que vem adquirindo, ela está muito esperançosa e espera conquistar a vaga. “Moro com minha mãe, meu padrasto e meus dois irmãos. Quero conseguir o emprego aqui para ajudar a pagar as contas em casa… E o resto para mim, pelo menos para pagar meu curso”, diz Milena, sorrindo.

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Segundo ela, das meninas com as quais estudou, quase todas procuram emprego. “Algumas fazem bico, uma delas é revendedora de maquiagem. Tem outra que está fazendo curso também, mas está tendo dificuldade de continuar estudando”, ressalta. As amigas de Milena fazem parte dos 18,4% de jovens entre 15 e 29 anos no país que não estudam, não fazem cursos profissionalizantes e não trabalham, segundo estudos recentes da Organização Mundial do Trabalho (OIT). A entidade aponta ainda que, se for calculado os jovens que deixaram de procurar emprego por não encontrarem trabalho e que também não estão estudando, a taxa seria de preocupantes 26,6%.

Robinson Coutinho é um pouco mais velho, com 32 anos. Veio da Zona Norte, em Cascadura. O rapaz está procurando emprego há sete meses. “Já estou esse tempo sem emprego fixo, mas sempre faço algum trabalho. Venho fazendo figuração no Projac, mas o que aparecer aqui eu quero. Vaga de atendente, o que for.” Para Robinson, muitos jovens que conseguem o primeiro emprego não conseguem se adaptar à realidade do mercado, abandonando o cargo.

“Tem muito jovem que entra no mercado de trabalho, fica desgostoso com a realidade do emprego e não consegue se adaptar. No desespero de arrumar alguma ocupação, pegam a primeira coisa que aparece e ficam insatisfeitos muito rapidamente. O emprego disponível para eles costuma ser bem ruim”, Robinson ressalta que não está sem renda, mas, segundo ele, só tem o correspondente ao essencial para sobreviver. “O progresso na vida você só tem além do bico. Esse tipo de ocupação não é trabalho, é serviço”, conclui.

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* do projeto de estágio do JB