'Clarín': Impeachment de Dilma é uma batalha de interesses

Matéria publicada nesta quarta-feira (31) pelo jornal argentino Clarín fala que a percepção entre analistas, formadores de opinião e eleitores dos países vizinhos é que Dilma provavelmente deveria concluir seu mandato, até o prazo de 2018. Primeiro porque poucos entendem a lei de responsabilidade fiscal – inexistente em países vizinhos, como a Argentina, por exemplo. Segundo porque a expectativa em alguns setores era de que fossem convocadas eleições antecipadas, diante do imbróglio de denúncias de corrupção que envolve o PT e o sistema político brasileiro. 

“Impeachment de Dilma é uma batalha de interesses e representa o custo político de driblar eleições antecipadas”, escreveu o editor de internacional do Clarin.

Estimativas publicadas nos sites de jornais brasileiros apontam que 54 senadores votariam pela saída de Dilma, atingindo a maioria necessária entre 81 senadores.

A vida política de Dilma – e do Brasil – mudou a partir de 2013.

De acordo com concordam André Singer, ex-porta-voz do governo Lula e Marcos Nobre, professor de filosofia da Universidade de Campinas (Unicamp) existe um antes e um depois de junho de 2014 quando brasileiros saíram às ruas protestar contra os gastos com a Copa das Confederações e a Copa do Mundo, em meio a investigações de corrupção, diz a reportagem do Clarín. 

Com cartazes que pediam “queremos hospitais padrão FIFA”, os protestos que começaram em São Paulo foram ganhando as ruas de outros pontos do país, “apesar de não envolver todos os setores”, observou Singer.

Segundo a reportagem do Clarín, em 2013 a popularidade de Dilma batia recorde. Desde aquele ano a decepção dos brasileiros com o sistema político ficou ainda mais evidente, assim como o papel da sociedade brasileira que por características ou por rótulos, parecia desinteressada pela política e por protestos. O tom agora não parece apenas de desinteresse, mas sim de decepção.

“O impeachment de Collor uniu o país. O impeachment de Dilma dividiu o país”, disse o ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim.

“A divisão é um fato, mas somente a constatação não resolve o divórcio que existe hoje entre a sociedade e o sistema político brasileiro”, disse Nobre.

Em outubro, os eleitores irão às urnas votar para prefeito e vereadores, acrescenta o jornal argentino. No Rio de Janeiro, depois dos emblemáticos Jogos Olímpicos, elogiados em grande parte da cidade, do país e no exterior, é comum ouvir frases como “ainda não sei em quem vou votar” ou “político é tudo igual” ou ainda “para prefeito voto porque muda nossas vidas, mas para Brasília, vejo todos iguais, um mais corrupto que o outro”.

O Clarín fala que Brasília viveu horas intensas desde a quinta-feira (25) passada quando foram iniciadas declarações no Senado – o salão do tapete azul – do Congresso Nacional, para definir a cassação ou não de Dilma. Neste período, Dilma se emocionou ao falar em “gosto amargo”, em “defender a democracia” e em recordar “traições” políticas e seu passado de torturada pela ditadura militar. Paralelamente, analistas econômicos observam que a economia brasileira “terá mais chances de retomar o crescimento” caso o impeachment seja aprovado.

O país vive há quase três anos em recessão, com desemprego que afeta a cerca de onze milhões de pessoas e quebra de empresas.

E apesar das expectativas econômicas em um eventual e definitivo governo Temer até 2018, as notícias desta quarta preocupam. 

Dados oficiais indicam que o Produto Interno Bruto (PIB) recuou 0,6% no segundo trimestre e registra seis trimestres seguidos de queda. 

O colunista do jornal Valor Econômico, do Brasil, Cristiano Romero, escreveu nesta quarta que “Michel Temer assumiu o poder com legitimidade constitucional, mas sem legitimidade popular. Com a definição do impeachment, ganha algum capital político, não se sabe quanto exatamente, mas talvez o suficiente para levar adiante a agenda (de medidas) já anunciada”.

Como no impeachment de Collor, em 1992, quando seu vice-presidente Itamar Franco foi imediatamente empossado após sua renúncia, Michel Temer espera ser empossado rapidamente, ainda nesta quarta-feira.

O Brasil mudou em muitos aspectos nestes 24 anos – Plano Real, eleições presidenciais, com estabilidade econômica e política – mas a recessão histórica e a crise política colocaram tudo isso na berlinda.

Nesta quarta, aconteça o que acontecer, será outro capitulo histórico. E o tempo dirá se foi escolhido ou não o melhor caminho para os 206 milhões de brasileiros.