'MercoPress': Itamaraty questiona gestão de Serra

Matéria publicada pelo site uruguaio MercoPress conta que um dos ministros mais questionados da gestão Temer, o chanceler José Serra tem atuado no Itamaraty de maneira a desfazer decisões tomadas por governos anteriores em questões relacionadas à política externa, seja em suas visões sobre o conflito Israel/Palestina, seja nas alianças firmadas dentro do Mercosul.

O texto diz que, no discurso de transmissão do cargo de ministro das Relações Exteriores ao professor e empresário Celso Lafer (2001), aquele chanceler que se notabilizaria por tirar os sapatos e as meias para ingressar nos EUA, o ministro Luiz Felipe Lampreia, resumindo a política externa do governo FHC, proclamou: 'O Brasil não pode querer ser mais do que é'. Não se tratava, essa, de uma frase qualquer perdida no cipoal de um discurso protocolar, mas de síntese lapidar de como a classe dominante brasileira, alienada e colonizada – culturalmente, politicamente, ideologicamente – se vê a si mesma e como a partir dessa visão abastardada (o sempre presente ‘complexo de vira-latas’ diagnosticado por Nelson Rodrigues), vê o país e nosso papel no mundo. Ou, antes, nosso não-papel.”

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O site acrescenta que Lampreia falava como intelectual orgânico da classe dominante nativa, como falaria e agiria seu sucessor Celso Lafer e como fala agora José Serra. Com aquela síntese o embaixador, recentemente falecido, exortava-nos à renúncia não só a qualquer política externa tentativamente independente – tradição que o Itamaraty vinha construindo desde Afonso Arinos-San Tiago Dantas --, mas mesmo de renunciar simplesmente a ter política própria, aspirar a algo no concerto das nações. Sem saber, Lampreia antecipava o que seria a não-política externa de seu correligionário José Serra. Na época, o ministro Lampreia, não estava só, nem foi original em seu discurso dependentista, que vê a dependência não como tragédia a ser removida, mas como fatalismo transformado em momento de regozijo. Antes dele, Vicente Rao, servindo ao governo títere de Café Filho (agosto de 1954/novembro de 1955), declarara, sob os aplausos da grande imprensa brasileira: 'O Brasil está fadado a ser, por tempo indefinido, um satélite dos Estados Unidos'. O conflito dependência/independência vem de longe. Evidentemente, não podemos aspirar à autonomia, mesmo condicionada pelo entrecho internacional, ou à independência, à soberania e ao desenvolvimento, ou seja, a um projeto nacional, se aceitamos uma visão de Brasil e de seu lugar no mundo, segundo a qual nosso país 'não pode querer ser mais do que é', pois 'o importante é adaptar-se ao mainstream' e 'ser convidado para sentar-se à mesa' de discussão, pois, quem sabe, nos servirão as sobras.”

Segundo a reportagem, essa política, de priorização dos interesses nacionais foi abandonada após o golpe militar de 1964, quando imperou a doutrina segundo a qual o que é bom para os EUA é bom para o Brasil, nesses termos formulada pelo embaixador do Brasil em Washington, general Juraci Magalhães (1966-1967). Tal política, por sua vez, começa a ser revertida, já sob a ditadura militar, logo ao tempo de Magalhães Pinto, ministro das Relações Exteriores. A autonomia cresce nas administrações Geisel (ministro Azeredo da Silveira) e Figueiredo (Saraiva Guerreiro). Geisel (1974-1979) chega a romper o acordo militar Brasil-EUA ao reagir às ameaças da Casa Branca, insatisfeita com o acordo nuclear firmado pelo Brasil com a Alemanha (1975), que previa transferência de tecnologia sensível ao Brasil. Naquele ano, foi criado o ainda hoje claudicante Programa Nuclear Brasileiro, que previa a instalação de uma usina de enriquecimento de urânio, e várias centrais termonucleares, contra o que militavam e ainda militam os EUA.