Temer repete estratégia criticada no governo Dilma: a barganha de cargos

O governo de Michel Temer, que assume a Presidência da República com o afastamento de Dilma Rousseff, inicia com a mesma prática que era criticada no governo petista: a barganha de cargos em troca de apoio. Políticos do PSDB, DEM, PRB e PSD devem assumir ministérios e outros postos no governo do peemedebista. Em troca, os partidos devem articular a aprovação de projetos do governo no parlamento. 

"Tanto se criticava o fisiologismo nos governos do PT e o que se verifica agora é o mesmo procedimento. O discurso do 'ministério de notáveis' não foi para frente e o que se está sendo feito é uma partilha de cargos na tentativa de compra de apoio político", afirmou a cientista política Simone Cuber, doutora pelo IESP/Uerj.

Para Leonardo Paz Neves, também especialista em ciência política, essas alianças são necessárias para que o governo Temer implemente as reformas necessárias para que o país supere a crise econômica.

"O Michel Temer só tem dois anos de governo. Esses acordos fazem sentido para viabilizar mudanças. A composição do legislativo é fisiológica, é necessário esse toma lá dá cá. Sem isso não tem como fazer uma gestão de impacto", avaliou Leonardo, que é professor do Ibmec.

>> Temer escolhe equipe ministerial e já define primeiras medidas

Para Simone, a base de sustentação do governo Temer pode não durar no longo prazo. Em sua avaliação, os partidos podem retirar o apoio assim que pautas mais polêmicas, contra a vontade popular, forem colocadas para votação.

"Ele pode ter um período inicial de estabilidade ou de aprovação de suas propostas. No entanto, a partir do momento que ele colocar sob votação projetos sobre reformas do Estado mais profundas que tenham impacto na sociedade, a sociedade vai reagir a isso e as bancadas vão retirar todo o apoio que dão a ele. Pode haver um movimento inicial de aparente calmaria, que a gente não sabe o preço, mas não vai se manter por muito tempo. Vai fazer falta a legitimidade popular a esse governo", comentou a cientista política.

Próximos passos

Tanto Leonardo Paz quanto Simone Cuber acreditam que é difícil que Dilma Rousseff e seus aliados consigam reverter a situação até a votação final do Senado Federal, que deve ocorrer em até 180 dias.

"Não é impossível, mas a Dilma fica mais enfraquecida, já que ela perde a caneta para negociar. Até agora ela não conseguiu comprar os votos, então não vai ser agora que ela vai conseguir fazer isso. Ela depende mais dos erros do Temer do que dos acertos dela", afirmou o professor.

Simone salienta que a data para a segunda votação não deve chegar ao prazo máximo: "Eles vão fazer de tudo para fazer esse processo o mais célere possível dentro dos trâmites. A Dilma não vai ter tempo de reconstruir sua base política nesse tempo. Infelizmente, encerrou-se, na votação desta quarta-feira, o governo Dilma", disse Simone.

A cientista política, ainda, manifestou preocupação com as instituições democráticas brasileiras ao fim desse processo. "Para além de um governo Temer, para além das eleições de 2018, a minha preocupação é com as nossas instituições, que demonstraram fraqueza com o compromisso democrático", comentou Simone, que acredita que aspectos políticos pesaram mais que o rigor técnico e jurídico na condução do impeachment.

* do projeto de estágio do JB