A preocupante realidade da política brasileira

Diante de uma infinidade de denúncias, especialistas ressaltam a necessidade imediata da reforma

Nos últimos meses, o aprofundamento da crise política brasileira expôs aos quatro cantos do país a mediocridade de boa parte da classe política brasileira. Desde o desfile de discursos rasos, no dia da votação do impeachment na Câmara, à infinidade de denúncias, que não pararam de vir à tona, o que se vê é uma quantidade assustadora de parlamentares que, em circunstâncias normais, jamais poderiam estar representando o povo no Congresso. Diante deste quadro, o que esperar do futuro político do país?

Apenas para citar os exemplos mais recentes, na terça-feira (3), a Câmara dos Deputados escolheu os presidentes das 25 comissões permanentes da Casa, entre eles deputados que são investigados na Operação Lava Jato, como Lázaro Botelho (PP-TO), designado para a Comissão de Agricultura. 

Situação semelhante também ocorre na Comissão de Minas e Energia, em que o titular, o deputado Paulo Feijó (PR-RJ) esteve envolvido no episódio conhecido como 'Máfia dos Sanguessugas'. 

Principais opositores ao governo, Aécio Neves (PSDB-MG) e Eduardo Cunha (PMDB-RJ) também enfrentam denúncias de participação em diversos esquemas. O senador mineiro, inclusive, é alvo da Procuradoria Geral da República por ter, supostamente, participado de irregularidades na Furnas, empresa subsidiária da estatal Eletrobras.

Já o peemedebista é um dos principais investigados na Operação Lava Jato, que apura esquemas de corrupção que envolveriam diversos partidos políticos, a elite empresarial e diretores da Petrobras. Cunha é acusado de receber propina de US$ 5 milhões para viabilizar, sem licitação, a construção de dois navios-sonda da estatal. 

Diante deste cenário, especialistas alertam que mais do que nunca se faz necessária uma reforma política. "Há a necessidade de uma imperiosa reforma partidária-eleitoral", avaliou o professor Alvaro Bianchi, do departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Contudo, para ele essas mudanças, que precisariam passar por votação no Congresso Nacional, são difíceis de ocorrer pela composição das casas legislativas: "A reforma necessária não contaria com o apoio daqueles que deveriam aprová-la".

Bianchi ressalta que mudanças mais urgentes que poderiam influenciar a composição e o andamento do jogo político seriam a limitação radical do financiamento de campanhas e o fim da votação por lista, mecanismos que poderiam aumentar o controle popular dos parlamentares eleitos.

O cientista político Frederico Almeida, também da Unicamp, vai ao encontro do colega de departamento. Para ele, o fim da corrupção está ligado a causas estruturais. "Há uma ilusão de que o impeachment da presidente Dilma pode acabar com a corrupção, há um entusiasmo em relação à Operação Lava Jato, mas a gente não vê avanço nas discussões mais estruturais", salientou Almeida.

De acordo com ele, o financiamento privado de campanha, que passou pelo Congresso Nacional em novembro do ano passado, após manutenção de veto da presidente Dilma, favoreceriam as negociatas entre setor público e privado.

Para Bianchi, outra peça fundamental que complexifica o tabuleiro da política brasileira é a quantidade de partidos políticos sem identidade ideológica. "São agremiações sem identidade ideológica ou programática. Uma das consequências disso é a intensa migração partidária. A situação seria diferente se os partidos fossem diferentes, apesar de existirem em um número grande. Nos últimos anos, o governo operou em constante barganha, com troca de cargos para a assinatura de emendas e projetos com toda essa quantidade de partidos", comentou o professor.

Para o futuro, Bianchi prevê que um eventual governo de Michel Temer deve exacerbar as piores características de um governo de coalizão e também acelerar o processo de pautas conservadoras: "Não é difícil fazer um prognóstico. O programa "Uma Ponte para o Futuro" inclui reforma da CLT, da Previdência". 

*do programa de estágio do JB