‘El País’: Corrupção na Petrobras sacode o Brasil

Arrependidos revelam à justiça o rastro de subornos da maior empresa pública latino-americana

“O sistema é simples, diabólico e eficaz: um acusado de corrupção vê sua pena reduzida se delatar outros implicados que, por sua vez, podem receber o mesmo tratamento, e assim o caso se ramifica até o infinito. É a maneira que o juiz brasileiro Sérgio Moro tem para remontar o rastro da milionária corrupção que atravessa de cima abaixo a maior empresa pública da América Latina, a petrolífera Petrobras, e que sacode o país”, diz o artigo do jornal espanhol El País, publicado nesta segunda-feira (24/11).

“Os ingredientes do caso são infinitos: contratos manipulados de milhões de reais, obras de construção de refinarias superfaturadas, contas bancárias repentinamente esvaziadas para que não sejam embargadas, arrependidos que fazem acordos depois de pagar 30 milhões de euros, maletas com bilhetes que vêm e vão, aviões privados levando para cá e para lá somas enormes de dinheiro, um tesoureiro do Partido dos Trabalhadores (PT) implicado na trama e intermediários que se entregam depois de passar dias foragidos. E, além disso, vários dos maiores empresários do país, detidos na mesma prisão acusados de suborno, dividindo cadeia e destino com o delator, Alberto Youssef, que sabe tudo e conta tudo…”, escreve o jornalista Antonio Jiménez Barca.

Ele prossegue: “O sonoro sobrenome que a Polícia Federal do Brasil pôs na última fase da operação, o ‘Juízo Final’, é sintomático. Tudo no Brasil gira agora em torno desta gigantesca empresa pública e das revelações venenosas que chegam a cada manhã.

Há no momento 16 detidos. O ex-diretor de abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, e dos diretores de uma empresa fornecedora, inscritos todos no programa de “delação premiada” (redução de pena em troca de delatar outros envolvidos), cumprem condenação em casa. Os outros 13 (empresários, diretores, altos executivos, outro ex-diretor da Petrobras e o quarto delator, o doleiro Alberto Youssef) dividem uma prisão em Curitiba. Youssef, ele sim, em cela separada: seu advogado não tem total garantia sobre sua integridade física, já que virou o alvo a ser atingido”.

“Todos são acusados de alimentar um esquema super conhecido: os ocupantes de altos cargos da Petrobras recebiam subornos por parte das empresas a fim de garantir os contratos. Figuras marginais se moviam de um lado para o outro com maletas para azeitar uma máquina que chegou a mover mais de 10 bilhões de reais (mais de 3 bilhões de euros). Ninguém sabe qual é a soma real. As empresas implicadas tinham (e têm) contratos no valor de 60 bilhões de reais (20 bilhões de euros). Mas quanto fica pelo caminho? 10%? 20%?  50%? O ex-diretor Costa e o doleiro Youssef garantem que os partidos políticos, entre eles o PSDB e o PT de Lula e Dilma Rousseff,  levavam sua parte, que chegava a 3%.

A Petrobras, com seus 86 mil empregados, não é uma empresa qualquer: refina 98% da gasolina que é consumida no Brasil, comercializa com cerca de 20 mil empresas que produzem todo tipo de produtos e ela mesma é responsável por um décimo de todos os investimentos feitos no Brasil. Por isso que o governo, abalado pela crise, está preocupado não só com a repercussão política do caso mas também com a ressaca econômica e, inclusive, social. Das dez maiores empresas de engenharia e construção do país, só duas não estão envolvidas no escândalo da Petrobras”, diz o artigo do El País

Com tudo isso, há quem garanta que existe um sério risco de paralisação das principais obras públicas que estão sendo feitas; em uma palavra: que o país pare. Assim assegurou na quinta-feira José Costa Neto, o presidente da principal empresa elétrica brasileira, a Eletrobras, controlada pelo governo. Nesse mesmo dia, o governador da Paraíba, Ricardo Coutinho, depois de uma entrevista com a recentemente reeleita Dilma Rousseff, afirmava: “A presidenta está preocupada com o que vai acontecer com as obras. E eu, como governador, também. Imagine o que significaria agora paralisar, por exemplo, a construção dos canais do São Francisco”.

Um dos advogados dos detidos assegurava esta semana, depois de visitar seu cliente, que o suborno era inevitável: “Se não, a obra não saía. Se alguém desconhece isso, desconhece a história deste país”. O empresário Ricardo Semler, de 55 anos, em uma recente coluna na Folha de São Paulo intitulada ‘Nunca se roubou tão pouco’ escreve: “Não sendo do PT e sim tucano (do PSDB, partido do liberal Aécio Neves, que perdeu as últimas eleições para Dilma Rousseff) quero deixar claro que esta onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país. Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos setenta. Era impossível vender diretamente sem suborno. Tentamos de novo nos anos oitenta, noventa e inclusive recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, não fizemos nada”.

Outro advogado dos detentos, ao ser perguntado sobre as consequências finais do caso, respondeu: “Não sei onde isso vai acabar”. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, em uma recente entrevista para a Folha de São Paulo, afirmou: “Isso é como um rastilho de pólvora. Quando um começa a falar, o outro diz: ‘Que houve? Vai sobrar só pra mim?’. E aí eles começam a falar mesmo”.

“As ramificações políticas são imprevisíveis: Costa e Youssef acusam diretamente o tesoureiro do PT, João Vaccari, de levar subornos para cobrir os custos das campanhas políticas de seu partido. Também apontaram outros intermediários de outros partidos. Enquanto isso, a presidenta Dilma Rousseff, em Brasília, tenta acalmar a tormenta como pode, sem aparecer muito, se abraçando à tese de que já defendeu durante a campanha, que consiste em assegurar que em seu mandato se investiga e se persegue a corrupção. A seu favor está o fato incontestável de ver na prisão empresários que até pouco tempo eram intocáveis. O procurador-geral disse de forma clara na entrevista citada: “Antes, aqui no Brasil existia a justiça dos três Ps: puta, preto e pobre. Há alguns anos não é mais assim”. O ex-presidente Lula, entretanto, segundo o jornal O Globo, recomendou à presidenta esperar antes de designar a nova e grande equipe ministerial por completo para ter certeza de que nenhum dos escolhidos está implicado no caso”, encerra o artigo do El País.