Financial Times: Fim do "boom" latino-americano

Artigo analisa a influência da estagnação da economia nas mudanças políticas da América Latina

Em artigo publicado no Financial Times, nesta quinta-feira, é feita uma análise sobre a atual situação dos países da América Latina. Segundo o jornal britânico, os países latino-americanos estão passando por um período de estagnação econômica. Como exemplo, o artigo enumera a Venezuela, a Argentina e o Brasil como “as três economias mais vulneráveis da América do Sul”. Segundo o jornal, a falta de fôlego econômico dos três países, pode ser um sinal de eu o “boom” de uma década da América do Sul, pode estar chegando ao fim e, como conseqüência disso, a necessidade de mudança política começa a se fazer presente.

Há uma década, o crescimento das comoditties chinesas coincidiu com um período de bonança política na região. O socialista Hugo Chávez era presidente da Venezuela, a Argentina tinha como presidente Néstor Kirchner enquanto o Brasil passava pelo governo Lula. Durante esse período, os salários e as taxas de emprego aumentaram, a desigualdade caiu e a classe média cresceu juntamente com o “boom”.

Apesar dos bons ventos, o artigo aponta que nos três países prevaleceram governos que estavam há muito tempo no poder. Na Venezuela, o governo instituído pela revolução bolivariana já mantinha-se no poder há 16 anos. No Brasil e na Argentina, o governo do PT e dos Kirchner, respectivamente, estavam a 12. “Mas qualquer governo que permanece por muito tempo no poder, corre o risco de perder o rumo”. Segundo o jornal, essa situação se aprofunda ainda mais com as mudanças econômicas.

Com a economia da China esfriando e o preço das commodities caindo, as fragilidades começam aparecer, como os déficits nas contas desses países. O aumento das taxas de juros dos Estados Unidos também pode contribuir para a dificuldade de financiar esse déficit. Além disso, o aumento da classe média pode significar um aumento do crédito do consumidor, o que significam gastos maiores.

Segundo o Financial, os países da América Latina que estão menos vulneráveis a essa mudança econômica são aqueles que priorizaram investimentos. “O Peru e a Colômbia priorizaram um ‘estilo asiático’ de investimentos com 28% da produção, mas Venezuela e Argentina administraram mal o “boom” e agora enfrentam algumas mudanças políticas que podem ser traumáticas”.

O Brasil, que vai para as urnas no próximo mês, é uma tradução do período de crise pelo qual a América Latina está passando com, segundo o artigo, “uma corrida presidencial acirrada” . De um lado atual presidente, Dilma Roussef, descrita como uma “tecnocrata bem intencionada”, escolhida pelo ex-presidente Lula – “cujo pensamento parece, infelizmente, preso aos anos 1970”. O artigo do Financial afirma que a política da presidente levaram o país a uma estaginflação que “impede o Brasil de sair da sua dependência de commodities”.

Marina Silva é apontada como sua principal rival na disputa. Descrita como “ambientalista”, o artigo destaca a promessa da candidata do PSB de um programa econômico para aumentar os investimentos e dar mais autonomia ao Banco Central no Brasil. O artigo afirma que a vitória de Marina seria “notável de muitas maneiras”.

Segundo o jornal, o primeiro passo seria uma alteração nas relações exteriores do país no continente e no mundo, que, com o governo atual, tem uma tendência a apoiar os países com uma política de esquerda na região. No artigo, “os assessores de Marina Silva já está buscando como lidar melhor comercialmente com os Estados Unidos e a Europa, em detrimento do bloco comercial do Mercosul, que incluem a Argentina e a Venzuela”.

Outro ponto levantado pelo Financial Times é que a possível vitória de Marina Silva seria a primeira vez que um presidente da América Latina perderia a reeleição para alguém da oposição. “Isso poderia ser um sinal de uma mudança política na região enquanto a economia está lenta”.

O que poderia estar definindo essa mudança, segundo o artigo do FT, são os 70 milhões de latino-americanos que saíram da pobreza na década passada e correspondem, agora, a uma pequena burguesia menos interessada nas pautas políticas do que nas oportunidades. Outro fator seria o surgimento de uma geração desencantada com o status quo. “Mais da metade da população da América Latina está abaixo de 27 anos. É uma porção conectada a internet, interessada em novas ideias, mais do que das velhas. E sem extremismos ideológicos de esquerda ou direita”, descreve o artigo.

Segundo o artigo, essas características levam a essa porção da população a ter uma tendência maior a apoiar a candidatura de Marina Silva. Além disso, as promessas de “mudança” e “esperança” anunciadas pela candidata atraem esses jovens. “Mas também pode ser um sinal das coisas que virão, quando o período de prosperidade acabar”, conclui o artigo.