'El País': "Governo se contenta em administrar a pobreza", diz Aécio

O jornal espanhol El País destaca nesta segunda-feira (2/12) uma entrevista exclusiva com o candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), o senador Aécio Neves, nas próximas eleições presidenciais no Brasil. Com o título "O governo se contenta em administrar a pobreza. Queremos vencer", a matéria dos correspondentes Carla Jimenez e Luis Prados destaca o perfil e planos político de Aécio e os números recentes das pesquisas, que apontam 14% para o senador contra os mais de 40% nas intenções de voto para a presidente Dilma Rousseff. 

Aécio afirma ter visitado seis estados brasileiros, nos últimos seis meses, observando uma mudança nas expectativas futuras da população, que quer mais investimento na educação, sendo esta a questão chave. Ele avaliou a administração do PT nos últimos dez anos, citando o controle da inflação, mas acredita que o governo tem perdido credibilidade. O senador afirmou que o desejo de mudança é real e mais de 60% da população expressa isso. Ele se considera o candidato de oposição mais apropriado para mudar o cenário nacional. Aécio enumerou as prioridades do plano de governo do PSDB, como o controle da inflação, a melhoria da educação, como será tratado os serviços públicos e o setor privado.

O senador Aécio Neves disse que o seu maior esforço na presidência do PSDB foi resgatar o legado do partido, lembrando os feitos do governo de Fernando Henrique Cardoso, citando a estabilidade da moeda, a privatização, a Lei de Responsabilidade Fiscal e os programas de transferência de renda. Para o senador, o ex-presidente Lula foi "beneficiado pela herança bendita do Cardoso". Aécio citou duas virtudes do ex-presidente petista: "Uma, manter os pilares dos fundamentos macroeconômicos (...) unificação e realização de programas sociais. A desvantagem era de que o seu uso era eleitoral", comentou o senador ao El País.

Quanto o programa Bolsa Família, Aécio considerou que ele está "enraizado" e, para o PT, representa o ponto de chegada, mas para o PSDB, o ponto de partida. "O Brasil não pode viver somente para esse benefício. Um pai não pode querer deixar o seu cartão do Bolsa Família para a criança. O PT está contente com a administração diária da pobreza. Queremos superar a pobreza. O governo tem a lógica inversa à racionalidade. Quer comemorar mais um milhão de famílias no Bolsa Família. Quero comemorar você ter um milhão a menos por terem entrado no mercado de trabalho", afirmou Aécio. 

Quanto aos escândalos envolvendo o nome de José Serra no governo da cidade de São Paulo, Aécio disse que Serra tem uma história política respeitável e os dois buscam uma unidade no partido, "porque acima de todas as diferenças que temos, há um projeto comum que é o de acabar o ciclo do PT e iniciar outro, ético, eficiente e meritocrático", justificou o senador. Ele disse ainda que o PSDB passa por uma mudança geracional. "O PSDB agora governa 52% da população e 54% do PIB brasileiro. Não espere que o PSDB tenha na próxima eleição a mesma postura defensiva que tivemos nos últimos três", revelou o candidato.

Ao ser questionado quanto à política de aprovação automática dos alunos e o projeto que está no Congresso prometendo dobrar o investimento de 5% a 10% do PIB, Aécio alegou que o país estava saindo de uma inflação de quatro dígitos quando o governo Fernando Henrique Cardoso "teve o grande mérito de acesso universal à educação". No final do mandato, 97% das crianças foram para a escola, segundo Aécio. "Queremos atingir gradualmente 10% do PIB em educação. Mas o progresso não é apenas investimento, melhoria da qualidade. Os próximos quatro anos vão ser muito difíceis para o Brasil, e precisamos de um governo forte", disse ele.

Ao destacar ao jornal El Pais que o atual governo "se contenta em administrar a pobreza", Aécio parece se esquecer - talvez por ser jovem - que o PSDB esteve no poder por dez anos.