SP: trem que matou oito pessoas estaria com velocidade 76% maior que limite

A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), responsável por fiscalizar a concessão de ferrovias no País, se manifestou sobre o acidente com o trem que matou oito pessoas, domingo, em São José do Rio Preto (SP), e afirmou que o limite de velocidade no local da tragédia é de 25 km/h. Perícia feita no equipamento que funciona como uma “caixa-preta” do trem aferiu que no instante do acidente, às 16h35, a composição estava a 44 km/h, valor 76% maior que o permitido. A América Latina Logística (ALL), que explora a malha férrea, afirma que o limite é o dobro.

“A restrição de velocidade, em função das passagens de nível existente antes e depois do local do acidente, é de 25 km/h”, afirma em nota a ANTT, dizendo ainda que vistoria realizada em Rio Preto em maio, atestou falhas na linha, o que reiterou a restrição de velocidade. “A concessionária ALL Malha Paulista foi notificada para a correção de diversas deficiências constatadas na via permanente. Em inspeções realizadas anteriormente, foram estabelecidas restrições na velocidade de circulação de trens no trecho referido, as quais ainda prevalecem.” 

A ANTT diz que a apuração sobre o caso termina em 30 dias. A polícia espera laudo para definir quem será responsabilizado pelo crime. Questionada sobre a velocidade, a ALL manteve ontem a afirmação de que o limite seria de 50 km/h porque a empresa fez melhorias no local. A restrição foi imposta em 2011. 

O presidente da Câmara Municipal de São José do Rio Preto, Paulo Pauléra (PP), anunciou ontem ação na Justiça Federal com pedido de liminar para impedir a circulação de trens até laudo que ateste segurança no local. A Câmara também formou ontem CPI para investigar irregularidades na linha. O MPF anunciou que pediu apuração da Polícia Federal sobre o acidente. Já a prefeitura entrou com representação no MPF para impedir trens na cidade e acusa a ANTT de ser “inerte”.

Manifestação impede restauração da linha

O sentimento de revolta tomou conta de moradores no local do acidente. Moradores invadiram a linha, no Jardim Conceição, e impediram que funcionários da ALL fizessem trabalho para recuperar malha e permitir a retomada de transporte de cargas. Com faixas e cartazes, moradores fizeram a primeira mobilização na noite de segunda-feira. A situação voltou a ficar tensa na manhã de terça-feira. A Guarda Municipal foi acionada para evitar confronto. Segundo a ALL, há 200 funcionários a postos para restabelecer o tráfego de trens em 24 horas. Os serviços, porém, estão paralisados. A empresa não descarta acionar a Justiça para tentar a liberação. 

Uma nova reunião aconteceria na noite desta terça para definir a situação. A princípio, o encontro seria de manhã, mas havia receio de funcionários da ALL por causa dos protestos. À tarde, outro encontro foi marcado, porém nenhum representante da empresa apareceu. À noite, moradores e vereadores iriam se reunir para discutir o assunto. Moradores e integrantes do #vergonhariopreto saíram em passeata até a Prefeitura. Nas redes sociais os protestos aumentaram. Foi criada a página “#lutoriopreto” no Facebook. Em outro site há pedido de adesões à abaixo-assinado para retirada dos trilhos do Centro.

Diretor da ALL diz que liberação é ‘direito’

O diretor jurídico da ALL, Pedro Almeida, viajou de Curitiba, onde fica a sede da empresa, a São José do Rio Preto para verificar a situação. Ele reuniu-se com vereadores e também na Defensoria Pública, que chamou a ALL para discutir ações de indenizações às vítimas.

“Estamos prestando assistência, e o que estiver faltando vamos ajustar”, afirmou. Ele espera a liberação da linha. “Esperamos a retomada através do diálogo. Queremos ter o direito de fazer a limpeza e restabelecer a linha com segurança”, disse.  Trens estão parados em Santos e no Mato Grosso por causa do acidente.