Boate Kiss: 10 meses após tragédia, Santa Maria faz mutirão de fiscalização

Ao visitar qualquer estabelecimento em Santa Maria (RS), você sabe se ele cumpre todas as normas? Como prevenir? A quem recorrer? Para responder questões como essa, o Fórum dos Conselhos das Profissões Regulamentadas do Rio Grande do Sul (Fórum-RS) montou uma força-tarefa para atuar na cidade desde segunda-feira. Até a tarde desta quarta, cerca de 200 estabelecimentos foram visitados por integrantes de 17 entidades que agregam profissionais de diferentes áreas, gerando 15 notificações que, em sua maioria, foram pela falta de profissional habilitado. A ação marcou a passagem dos dez meses da tragédia da Boate Kiss.

Os conselhos que têm sede em Santa Maria realizaram ações desde a segunda-feira. Na noite de terça-feira, bares e restaurantes foram o foco, com 60 locais visitados pelos profissionais, acompanhados da fiscalização municipal e de integrantes do Corpo de Bombeiros, para averiguação do Plano de Prevenção Contra Incêndio (PPCI).

Nos três dias da ação, nem todos os estabelecimentos visitados passaram incólumes. Houve farmácia, por exemplo, que não tinha um farmacêutico presente. Além de destacar a importância da prevenção, a ação do Fórum-RS queria chamar a atenção para o papel fiscalizador que o poder público pode exercer. "Queremos também uma fiscalização mais contundente do poder público em relação aos estabelecimentos. Os conselhos têm uma limitação: não podem fechar estabelecimentos, por exemplo. Por isso, o poder público precisa investir em fiscalização", diz Everton Borges, assessor de Relações Institucionais do Conselho Regional de Farmácia e chefe de fiscalização do Fórum-RS.

Em cada local, equipes de diferentes conselhos exerciam a fiscalização em suas respectivas áreas. Na unidade municipal de saúde básica Erasmo Crossetti, por exemplo, compareceram na manhã desta quarta profissionais das áreas de farmácia, de engenharia e agronomia e de fisioterapia e terapia ocupacional.  

Na manhã desta quarta, os mais de 30 profissionais de diversas áreas de atuação se reuniram na sede da Inspetoria do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea-RS) de Santa Maria, na avenida Borges de Medeiros, para combinar a operação. Dali, as equipes se dividiram para uma operação conjunta, que seria a primeira do tipo no País, que fiscalizou estabelecimentos como bares, farmácias, unidades de saúde, hospital, academias e restaurantes. Foram nove equipes de fiscalização, que usaram mais de 20 veículos.

A ação reuniu profissionais de 16 conselhos: Administração, Biblioteconomia, Biologia, Contabilidade, Corretores de Imóveis, Economia, Educação Física, Enfermagem, Engenharia e Agronomia, Farmácia, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Fonoaudiologia, Medicina Veterinária, Nutrição, Psicologia e Serviço Social. Também participaram profissionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RS).

Também nesta quarta, representantes dos conselhos ficaram na praça Saldanha Marinho, junto à tenda da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), no centro da cidade. No local, eles tiraram dúvidas e distribuíram materiais informativos com orientações sobre a fiscalização das mais diversas áreas. O foco foi dar atenção para a importância da prevenção. A presença na Saldanha Marinho também trouxe um efeito colateral positivo: muitas pessoas foram até lá para fazer denúncias a respeito de locais que deveriam ser fiscalizados, porque tinham problemas flagrantes.

"Essa ação toda foi de extrema importância. Acredito que vamos fazer outras nesse sentido. Isso só legitimou a caminhada dos familiares das vítimas. Nós devemos pensar em justiça, mas também em prevenção, para que tragédias como a da Kiss não se repitam. Se houvesse a prevenção naquela época, não tinham acontecido esses assassinatos, e os pais não estariam sofrendo como estão hoje, dez meses depois", avalia o presidente da AVTSM, Adherbal Ferreira.

Outras ações do mesmo tipo devem se repetir em mais cidades gaúchas. Profissionais dos conselhos também farão campanhas para recolher alimentos para serem destinados a familiares de vítimas da Kiss que estejam passando por dificuldades.

Na ausência de organizadores, familiares distribuem abraços

?Durante a tarde desta quarta, estava programada outra ação para marcar os dez meses da tragédia da Kiss: a distribuição de abraços no Calçadão e na praça Saldanha Marinho, no centro de Santa Maria. Os estudantes que haviam proposto a iniciativa não apareceram. Então, familiares de vítimas improvisaram e deram eles mesmos os abraços em quem passava pela tenda da AVTSM.

No final da tarde desta quarta, familiares e amigos das vítimas se reuniram mais uma vez para uma celebração que já se tornou tradicional a cada dia 27: o "minuto de barulho", com palmas, sinos e buzinas, para celebrar a vida alegre que as vítimas da Kiss tiveram. Logo depois, todos participam de um culto ecumênico na Igreja Evangélica de Confissão Luterana.