Mulher do médico Amílcar Lobo acusa militares de tortura na ditadura

"Nada a declarar". Essa foi a frase mais ouvida por quem acompanhou os depoimentos dos militares Dulene Garcez e Luiz Mário Correia Lima, prestados à Comissão da Verdade do Rio, nesta quarta-feira (02/10). A afirmação de que eles participavam de sessões de tortura foi confirmada pela mulher do médico psiquiatra Amílcar Lobo, Maria Helena Gomes de Souza. Lobo foi acusado de, após examinar os presos, confirmar se eles tinham condições de continuarem a ser submetidos a sessões de tortura, quando trabalhou no Batalhão da Polícia do Exército. Amílcar morreu em 1997, aos 58 anos.

"Meu marido nunca participou da tortura, mas não vim aqui para inocentá-lo. O erro dele foi a omissão. Havia uma sensação de impunidade e os militares achavam que estavam fazendo o melhor para o Brasil, que estariam salvando o país, mesmo que, para isso, estivessem torturando pessoas, o que acho um absurdo", disse Maria Helena, que falou também sobre a morte de Rubens Paiva e o contato que o marido teve com Inês Etienne, a única pessoa a sair viva da Casa da Morte, centro clandestino de torturas que funcionou em Petrópolis.

“Amílcar recebeu a notícia de que um preso de alta patente, quente, no linguajar usado por eles, precisava de atendimento médico. Foi recebido por um major, cujo nome não me recordo, que o levou até Rubens Paiva. Este estava nu, como era costume, e Amílcar o examinou. O preso se queixava de fortes dores. Conseguiu dizer, por três vezes, o seu nome. No dia seguinte, Amílcar soube, pelo tenente Avolio, que Rubens Paiva tinha morrido".

Dulene Garcez e Luiz Mário Correia Lima são acusados do assassinato do jornalista Mário Alves, em janeiro de 1970. O corpo de Mário Alves nunca foi encontrado. São acusados também de envolvimento na morte de Rubens Paiva. É a segunda vez que eles são convocados a depor, já que não foram à audiência pública realizada em 14 de agosto, na Alerj, onde só compareceu o ex-major do Corpo de Bombeiros, Walter da Costa Jacarandá.

Segundo os dois, o motivo de ficaram calados ou de dizerem que não têm nada a declarar, é que já tinham prestado esclarecimentos nos depoimentos prestados à Comissão Nacional da Verdade e ao Ministério Público Federal. Dos quatro agentes convocados falta ouvir o tenente Roberto Duque Estrada, que reside em Campinas.

"Se tudo estivesse sido esclarecido, eles não teriam sido convocados. Mas é direito, em um Estado democrático, que permaneçam calados, direito que foi negado àqueles que torturaram. Todos os indícios apontam para os nomes desses agentes e esses depoimentos são mais um elemento para o relatório que a Comissão da Verdade do Rio vai preparar. A sociedade precisa saber o que aconteceu. Caso o Ministério Público entenda que há elementos suficientes, tomará providências para denunciá-los”, destacou o presidente da Comissão da Verdade do Rio, Wadih Damous.

A tomada de depoimentos contou com a presença dos membros da Comissão da Verdade do Rio, inclusive Álvaro Caldas, torturado no DOI-Codi em janeiro de 1970. "Na entrada fui recebido pelo cabo Gil, que me encaminhou para uma sala do prédio do PIC, onde fui recepcionado pelo então tenente Correia Lima. Ali fui alvo de socos, empurrões, pontapés para, depois, ser levado à sala de tortura, onde se encontrava, além de Correia Lima, os tenentes Garcez e Avolio. Reconheço o senhor como tendo participado dessa sessão de tortura”, declarou o jornalista apontando para Correia Lima. Álvaro repetiu o relato quando o tenente Garcez prestou seu depoimento.