Barbosa diz que interferência política faz com que juízes 'não decidam'

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, afirmou que a intromissão política em assuntos da Corte e na própria carreira dos juízes que são indicados para os cargos é danosa para o Judiciário brasileiro. De acordo com ele, essa é uma das razões pelas quais "muitos juízes não decidem".

A fala foi interpretada como uma resposta ao ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que em entrevista ao Correio Braziliense afirmou que gostaria de ter sido mais criterioso na escolha dos ministros durante os seus dois mandatos, entre 2003 e 2010. Joaquim Barbosa foi um dos indicados por Lula no período.

"Não tenho nada a dizer. Ele foi presidente da República, eu não sou presidente da República. Não tenho nenhum papel na nomeação de ministros para o Supremo e nunca procurei exercer influência sobre esse papel", disse.

O ministro prosseguiu: "isso faz parte da independência de um juiz. Tem de ter tranquilidade. (O juiz) Não deve sofrer qualquer tipo de influência. Desconfie de juiz que vive travando relações políticas aqui e ali. (Você) Jamais vai querer ter seu patrimônio, sua vida, aspectos importantes da sua vida, nas mãos de um juiz com essas características. Infelizmente o nosso sistema permite que esse tipo de influência negativa seja exercido sobre determinados juízes. É claro que há juízes que conseguem driblar isso muito bem", afirmou ele, sem citar nomes.

Após participar de um seminário sobre produtividade na economia, abordando aspectos jurídicos sobre o tema, Barbosa afirmou que a criação de novos partidos no Brasil é péssima. Na semana passada foram aprovadas duas novas legendas: o Pros e o Solidariedade.

"Isso é péssimo. Não é bom para a estabilidade do sistema político brasileiro. O sistema político funciona bem com 10, 12, 15 (partidos). Muito menos do que 30 partidos. Nós tínhamos algo que existe em vários outros países, que é a chamada cláusula de barreira. Mas o Supremo Tribunal Federal declarou essa cláusula inconstitucional. Esse é o caminho da representatividade. Só sobrevivem aqueles partidos que continuam a ter representatividade no Congresso. Um dia, mais cedo ou mais tarde nós vamos ter de fazer essa opção", disse ele.

Sobre a prisão da jornalista Cláudia Trevisan, correspondente do jornal o Estado de S.Paulo em Washington, que tentava falar com ele após um seminário ocorrido na Universidade de Yale, ele se esquivou de qualquer participação na ação policial.

"Eu não tenho muito o que falar, gente. Eu estava dentro, participando de um evento quando isso ocorreu. Eu não presenciei, eu não conheço a jornalista. Não vi a jornalista. A leitura que eu faço é que o episódio já está encerrado. Acabou”.