Testemunha afirma ter visto Mércia com Mizael três dias após morte

Uma testemunha ouvida nesta terça-feira no julgamento do vigia Evandro Bezerra da Silva - suspeito de ser cúmplice do policial Mizael Bispo no assassinato de Mércia Nakashima em maio de 2010 - afirmou ter visto a advogada em uma praça de pedágio no dia 26 de maio de 2010, três dias depois da morte dela, segundo o laudo da perícia. Em depoimento no Fórum de Guarulhos (SP), a testemunha “alfa”, como vem sendo chamada porque é protegida pela Justiça, disse ter “100% de certeza” de que se tratava da vítima e de Mizael.

A testemunha, que trabalha em uma empresa terceirizada por concessionárias que faz limpeza em rodovias, afirmou que o casal estava em um Honda Fit de cor prata e que parou às margens da Via Dutra para pedir informações. Ele disse não recordar quantas portas tinha o carro, mas afirmou lembrar que o veículo tinha película.

Conforme a testemunha alfa, Mizael parou o carro antes de chegar ao pedágio para perguntar se havia outro caminho para Nazaré Paulista que não implicasse passar pelo posto de cobrança. A pergunta foi feita a um funcionário mais jovem, que não sabia responder e chamou a testemunha para que ajudasse.

O depoente disse que Mizael queria dar ré para não precisar passar pelo pedágio, mas, como eram cerca de 3 quilômetros, ele desistiu da ideia. Ao ser questionado o motivo pelo qual tinha certeza que era Mizael, a testemunha afirmou: “Era o Mizael que estava dirigindo. Eu sempre quis uma jaqueta de couro, e ele estava usando essa jaqueta”, disse. “Ao lado dele, tinha uma pessoa oriental, uma jovem”, continuou a testemunha, lembrando que Mércia não olhou para ele e continuou com o olhar fixo para frente, apesar de Mizael ter aberto o vidro do banco do passageiro para pedir as informações.

“Ele perguntou se Nazaré Paulista era perto de Igaratá”, disse a testemunha alfa, afirmando que Mizael chegou a perguntar se poderia entrar com o carro em uma estrada de terra que havia sido construída. O funcionário respondeu que não, pois aquela era a entrada de um sítio particular.

“Ele nem me agradeceu pela informação, só levantou o braço”, disse a testemunha. “Quando ele levantou o braço, eu percebi que ele tinha um problema na mão”. Mizael tem uma deficiência em uma das mãos e no pé em função de um acidente com descarga elétrica.

A testemunha disse que lembra que a placa do automóvel era de Guarulhos e que recorda do encontro com o casal pois achou estranha a situação, na qual o motorista não queria passar pelo pedágio e preferia dar ré no carro. Segundo o funcionário, ele ligou os fatos depois que viu na televisão que o veículo havia sido encontrado na represa de Nazaré Paulista. “O que chamou a minha atenção foi saber que o carro havia sido encontrado em Nazaré. Como ela pode ter sido morta dia 23? Quem estaria com ele dia 26 naquele carro?”, questionou a testemunha.

Promotor e advogado discutem por suposto bilhete

Durante a audiência de hoje, o promotor Rodrigo Merli e um dos quatro advogados de defesa protagonizaram uma discussão. Um defensor do réu afirmou em voz alta que viu a juíza passando um bilhete para Merli. A magistrada ficou indignada com a acusação, e o promotor iniciou uma discussão com o advogado.

“O senhor quer me revistar?”, perguntou Merli, se despindo da toga. Outro defensor do réu começou a aplaudir o promotor, que se irritou e se aproximou do advogado. Após interferência da juíza, ambos encerraram a discussão. Ao final, Merli se dirigiu ao mais experiente dos defensores e afirmou que ele “precisava instruir mais seus subalternos”.

O caso

A advogada Mércia Nakashima desapareceu no dia 23 de maio de 2010, após deixar a casa dos avós em Guarulhos, e foi encontrada morta no dia 11 de junho, em uma represa em Nazaré Paulista, no interior de São Paulo. A perícia apontou que ela foi ferida a tiros, mas morreu por afogamento quando seu carro foi empurrado para a água.

Ex-namorado de Mércia, o policial militar reformado e advogado Mizael Bispo de Souza, 43 anos, foi apontado como principal suspeito pelo crime e denunciado por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, emprego de meio cruel e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima). Em 14 de março deste ano, Mizael foi condenado a 20 anos de prisão pela morte de Mércia.