Carandiru: Fleury defende invasão, mas condena 'violência desnecessária'

O ex-governador de São Paulo, Luiz Antonio Fleury Filho, afirmou nesta terça-feira à Justiça paulista que a invasão da Polícia Militar ao Pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo, em outubro de 1992, foi "legítima e necessária". Na ocasião, 111 presos foram mortos, 102 deles a tiros. O ex-governador disse que em uma ação desse tipo é necessário evitar "violência desnecessária".

Fleury foi ouvido na condição de testemunha convocada pela defesa dos 26 réus que atuaram no terceiro pavimento do prédio. Fleury lembrou que na data da invasão estava em Sorocaba, no interior paulista, e só foi informado da entrada da polícia militar quando já estava de volta ao Palácio dos Bandeirantes, no fim da tarde.

"Já havia ocorrido a entrada da Polícia Militar na Casa de Detenção. Eu não falei com o secretário (Pedro Franco de Campos) até o momento que eu cheguei no Palácio. Ele me disse que havia três juízes de direito presentes e que a entrada foi necessária. Estava escuro, havia focos de incêndio e havia mortos entre eles", disse ele.

Fleury disse que a partir daí, passou a ser informado sobre o número de mortes. "Fui dormir achando que havia cerca de 60 mortes. Determinei que só informasse o número de mortos quando tivesse certeza de quantos eram. Disseram que foi abafado o número de mortes por conta da eleição, mas não houve nada disso", afirmou.

O governador reafirmou ainda o que já havia dito no julgamento dos primeiros réus do caso, em abril. “Não há dúvida que se fazia necessária. A entrada no presídio foi legítima e necessária. Reafirmo. Não dei a ordem, mas se estivesse no meu gabinete, com as informações que eu recebi, eu daria a ordem. No meu governo, a polícia não se omitia. No meu governo não tinha preso jogando futebol com a cabeça de outro preso", disse ele.

Relembre o caso

?Em 2 de outubro de 1992, uma briga entre presos da Casa de Detenção de São Paulo - o Carandiru - deu início a um tumulto no Pavilhão 9, que culminou com a invasão da Polícia Militar e a morte de 111 detentos. Os policiais são acusados de disparar contra presos que estariam desarmados. A perícia constatou que vários deles receberam tiros pelas costas e na cabeça.

Entre as versões para o início da briga está a disputa por um varal ou pelo controle de drogas no presídio por dois grupos rivais. Ex-funcionários da Casa de Detenção afirmam que a situação ficou incontrolável e por isso a presença da PM se tornou imprescindível.

A defesa afirma que os policiais militares foram hostilizados e que os presos estavam armados. Já os detentos garantem que atiraram todas as armas brancas pela janela das celas assim que perceberam a invasão. Do total de mortos, 102 presos foram baleados e outros nove morreram em decorrência de ferimentos provocados por armas brancas. De acordo com o relatório da Polícia Militar, 22 policiais ficaram feridos.