Testemunha diz que não estava na Boate Kiss e é dispensada de júri

Um dos depoimentos mais esperados para esta terça-feira no processo criminal da tragédia da Boate Kiss, no Fórum de Santa Maria (RS), acabou frustrado. Isso porque uma mulher que trabalhava na casa noturna, que seria ouvida na condição de vítima (sem o compromisso de falar a verdade) disse que não estava no estabelecimento na madrugada de 27 de janeiro, quando aconteceu o incêndio que causou a morte de 242 pessoas. Por isso, ela acabou dispensada.

O primeiro depoimento do dia foi o do personal trainer Ezequiel Lovato Corte Real, que salvou "de 20 a 30 pessoas" da Boate Kiss. Ele disse que chegou a ver o início do fogo, quando o vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos - que é um dos réus - começou a pular no palco, cantando e segurando um artefato pirotécnico.

Ezequiel afirmou que viu o músico tentando usar um extintor de incêndio, mas que saiu só "um bafo de pó branco". "O pessoal vaiou. O fogo era pequeno, mas se espalhou muito rápido. Em 20, 40 segundos, já tinha uns cinco metros de fogo", disse Ezequiel.

O jovem, que já havia trabalhado como barman na Kiss em uma festa, ajudou a retirar várias pessoas de dentro da boate. No início, antes de os bombeiros chegarem, ele e outros jovens montaram uma equipe para resgatar pessoas e até ligaram para um amigo que não estava na casa noturna para pedir ajuda.

Depois que os bombeiros chegaram, Ezequiel disse que, inicialmente, havia "cerca de cinco" homens para o resgate e o combate ao fogo, e que apenas um deles entrava dentro da boate. Ele afirmou que pediu uma máscara de respiração que estava dentro do caminhão, mas um bombeiro lhe disse que não poderia emprestá-la porque o equipamento estava estragado.

O grupo de Ezequiel não chegou a ser impedido pelos bombeiros de retirar pessoas da boate. "Já estávamos mobilizados. Eles (os bombeiros) só se uniram com a gente. A gente era maior, tinha mais força para tirar as pessoas", disse.

Depois da luta para quebrar uma parede externa da boate e arrancar uma grade, Ezequiel conseguiu entrar novamente, como já havia feito outras vezes. Até então, ele não tinha a percepção exata da tragédia. "Não tinha visto que as pessoas estava morrendo. Eu só tirava para fora as pessoas e entregava para alguém", disse. Dessa vez, ao retirar uma pessoa e ver um bombeiro lhe dizer que ela estava morta, o rapaz desanimou.

Depois, Ezequiel ainda entrou na área VIP da boate, onde viu uma pessoa morta sobre uma grade. "Não tive nem forças para tirar o corpo", disse. Ele tentou resgatar mais pessoas, até que ouviu uma conversa entre um homem - que seria do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) - e uma policial militar: segundo eles, as pessoas que eram retiradas naquele momento já estavam mortas.

Depois de Ezequiel, era a vez de Márcia Helena Costa da Silva, que trabalhava na Kiss, prestar depoimento. Ela seria ouvida na condição de vítima, mas, ao responder à primeira pergunta feita pelo juiz Ulysses Fonseca Louzada, disse que não estava na boate na madrugada da tragédia. O fato já havia sido motivo de contestação do advogado Bruno Seligman de Menezes, e deu início a uma discussão com o promotor Joel Oliveira Dutra.

O juiz, então, repassou com Márcia Helena o depoimento dado por ela à Polícia Civil, em março, quando a funcionária da Kiss teria sido uma das primeiras pessoas a sair, no dia 27 de janeiro deste ano, porque estava na cozinha da boate. A mulher negou ter afirmado aquilo.

O advogado Bruno Seligman de Menezes formalizou uma notícia-crime para apurar o que aconteceu no caso de Márcia Helena. O promotor Joel Oliveira Dutra também pediu que seja apurado se houve irregularidade nos procedimentos da Polícia Civil ou se a testemunha faltou com a verdade.

À tarde, há previsão de ouvir mais três vítimas. Quando terminarem os depoimentos, pode ser que o Ministério Público (MP) se manifeste a respeito de pedidos feitos pelo advogado Omar Obregon, que defende o vocalista da Gurizada Fandangueira. Ele quer que sejam ouvidos o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB), o deputado estadual Jorge Pozzobom (PSDB) e o promotor Ricardo Lozza. Depois que o MP se manifestar, o juiz dará uma resposta para as solicitações. 

Além de Marcelo Jesus dos Santos, respondem ao processo pelo incêndio os integrantes da banda Gurizada Fandangueira, o produtor de palco Luciano Bonilha Leão e os sócios da Kiss, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko. Os quatro estão em liberdade. Mais uma vez, somente Marcelo e Luciano foram acompanhar a audiências no Salão do Tribunal do Júri, no Fórum de Santa Maria, na manhã desta terça-feira. Os quatro são acusados por homicídios qualificados com dolo eventual e tentativas de homicídio qualificado.

Outros sobreviventes, mais de 50, já foram listados pelas defesas para depor. O juiz Ulysses Fonseca Louzada, titular da 1ª Vara Criminal de Santa Maria, deve marcar essas audiências nos próximos dias para agosto e setembro.