Moradores de rua recebem abrigo e sessões de cinema em Florianópolis

Moradores de rua que estão acolhidos em abrigos montados pela prefeitura de Florianópolis elogiaram a "solidariedade" da população nos dias de frio intenso. Cerca de 170 pessoas estão acolhidas desde o último sábado por uma força-tarefa criada na cidade. O grupo vem ganhando até mesmo sessões de cinema.

No abrigo montado na Passarela Nego Quirido, os camarotes usados tradicionalmente para os desfiles de escolas de samba foram adaptados para receber os moradores de rua. As pessoas recebem alimentação, roupas, cobertores e tem acesso a banheiros.  A maioria evita falar com a imprensa e muitos pedem para não ser identificados. Muitos confessam ter "vergonha" de estar nessa situação.

Nesta terça-feira, os termômetros marcaram 4°C na capital catarinense no início da manhã. Para esta quarta-feira, a previsão é de mais frio: segundo o Centro de Recursos Ambientais de Santa Catarina (CIRAM), a sensação térmica na cidade pode chegar aos -11°C.

"Minha família não sabe onde estou. Saí de casa cedo para tentar uma vida melhor. Tá difícil, mas agora estou tendo ajuda. É a primeira vez que recebo um tratamento desses", afirma Olegário Júnior, morador de rua há seis anos. "Não existe coisa melhor que dormir em uma cama, com banho tomado."

Morador de rua há 19 anos, Cláudio, 40 anos, diz que muitas pessoas ainda se recusam a buscar os abrigos. "Tem amigos que ficam com medo de serem mandados embora da cidade", disse ele, que foi morar na rua após perder o pai e a mãe. "Eu era jovem, arrumei más companhias e estou há 19 anos na rua. Usei drogas e álcool, e muitas vezes fui internado. Não era essa a vida que eu queria e fico feliz de ter encontrado apoio agora."

Um dos primeiros a procurar o abrigo foi Sandro Augusto. Ele disse estar em situação de rua há pouco tempo, devido a "problemas familiares". "Não é uma coisa que ninguém quer para sua vida. Mas acontece. Eu fiquei sabendo desse serviço da prefeitura e procurei vir para cá. Não há como ficar na rua com esse frio", disse. "Acho que é um ato de solidariedade. Tem muita gente que vive na rua e a prefeitura está fazendo um serviço correto."

A força-tarefa criada pela prefeitura de Florianópolis não tem prazo para ser encerrada. Psicólogos e servidores da secretaria municipal de Assistência Social estão acompanhando de perto as pessoas alojadas. Até sessões de cinema estão sendo providenciadas em um telão montado em uma das salas da passarela do samba.

"Tem muita gente que está nessa situação e agora achamos ajuda. Poder ir a um banheiro de verdade era impossível para alguns de nós", afirma Cláudio. "Espero um dia poder me reerguer."