Reunião com Lula revela novo perfil da juventude do Brasil

Na semana em que todos os olhares estavam voltados para as inúmeras reuniões dos movimentos sociais com a presidente Dilma Rousseff e as bases governistas, em Brasília, um encontro realizado na terça-feira (25/06), na base do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Instituto Lula, em São Paulo, roubou a cena nas redes sociais e foi alvo de especulações sobre o possível papel de liderança que Lula estava assumindo nos movimentos sociais, convocando a juventude “para ir às ruas”. A reunião foi marcada pela assessoria do Instituto Lula, segundo um dos representantes dos movimentos jovens, com 15 lideranças que têm longa relação com o ex-presidente, e o objetivo não foi convocar novos protesto, mas avaliar a atual conjuntura do país, três dias antes do mesmo grupo se reunir com Dilma Rousseff, no Planalto. O Movimento Passe Livre (MPL), que foi o estopim das manifestações, não compareceu.

O encontro de Lula com as lideranças de movimentos nacionais evidenciou uma transformação no perfil desses jovens ativistas. Um retrato novo e ainda difuso da população que está indo às ruas reivindicar os seus direitos, mas que aos poucos está tomando forma e conceitos a partir dos constantes contatos que eles têm mantido entre os grupos participantes das manifestações. O amadurecimento foi uma das conquistas dos jovens ativistas, que veio à tona no calor dos protestos que também estão mudando os rumos da nação. Esses ativistas da juventude contaram para nossa reportagem como têm sido os últimos dias de negociações e seus reflexos nos movimentos que eles representam.

O presidente do Conselho Nacional da Juventude (CNJ), Alessandro Melchior, que esteve presente na reunião com o ex-presidente em São Paulo e no encontro de sexta-feira (28/06) com a presidente Dilma, em Brasília, disse que os movimentos juvenis ganharam força por todo Brasil. Melchior reforçou a importância do encontro com Lula e revelou que este é apenas um dos muitos debates que estão acontecendo, periodicamente, com a presença do ex-presidente e servem para interpretar o atual cenário brasileiro, as formas de manifestações e os avanços na democracia.

"A conversa fluiu muito tranquilamente e o ex-presidente nos ouviu muito mais do que falou, revelou Melchior", se referindo à reunião de terça.

Ele notou que o clima de confiança na legitimidade das manifestações aumentou e numa conversa informal, o grupo conseguiu avaliar os atos públicos, além das críticas às repressões por parte dos participantes. Segundo Melchior, o petista pediu aos jovens para continuarem analisando os protestos e manterem sempre uma linha aberta de diálogo com ele.

"Tivemos a oportunidade de comentar que as manifestações apontam para mais direitos sociais e por uma agenda de liberdades, de crítica ao fundamentalismo e ao conservadorismo", comemorou o líder.

Durante a reunião, foram expostos caminhos que podem ser percorridos na defesa dos avanços dos direitos sociais, saúde e educação. Para os jovens, um elemento central é a reivindicação do transporte público como um direito e não como serviço.

"Isso é muito importante, porque deixa de lado a discussão sobre subsídios para tarifas. Queremos que transporte seja como saúde e educação, responsabilidade do Estado. Há uma PEC, da deputada Luiza Erundina, que trata disso e está em tramitação no Congresso. Parada, no entanto. E com conteúdo muito mais importante que essa proposta de passe livre estudantil, do presidente Renan Calheiros", destacou Melchior.

Segundo o líder do conselho, a entidade que ele representa entende que o lugar da juventude é nas ruas, reivindicando mudanças e avanços na democracia. Em nota, o CNJ condenou as repressões contra os movimentos.

"Essa semana, no Rio de Janeiro, a polícia invadiu a casa de um manifestante e confiscou um livro sobre anarquismo. No Distrito Federal, o governador mandou investigar quem eram os organizadores. Isso é um absurdo, é o vandalismo de Estado, muito pior que os atos de vandalismo cometidos por policiais e bandidos infiltrados nas manifestações. Acreditamos que o Brasil precisa investir mais em educação, saúde, políticas específicas para jovens, mulheres, negros, LGBT. Acreditamos que as manifestações têm apresentado também uma agenda de liberdades, descriminalização das drogas e do aborto, combate a homofobia, contra a internação compulsória de usuários e uma nova política de drogas para o Brasil, mais avançada que esse atraso que aí está expresso pelo PL 7663, apresentado pelo Congresso, com a omissão do Governo", justificou.

Na reunião com Dilma Rousseff, Melchior destacou que o conselho considera as manifestações essenciais e naturais da democracia, contrário às repressões policiais, que eles irão detalhar em um relatório que está sendo elaborado com todas as violações registradas nos estados, responsabilizando as polícias militares e os governos. O documento será entregue à presidente Dilma e à Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos.

Para as lideranças jovens, as reuniões dessa semana uniram ainda mais os grupos nacionais e o consenso foi um ponto a favor nos atuais atos de manifestação.

"No Brasil, estamos saindo às ruas para conquistar mais direitos, como a educação e o transporte de qualidade. Diferente da Europa, em crise, onde os jovens hoje lutam para não perder direitos já conquistados. A nossa luta é para o Brasil seguir em frente, continuar crescendo, distribuindo renda, incluindo milhões de jovens à educação formal. Mas à medida que se consolidam conquistas, queremos avançar mais", resumiu André Tokarski, presidente da União da Juventude Socialista.

Tokarski acredita que o Brasil possui uma energia democrática viva e forte, expressa na força que a juventude demonstra ao tomar as ruas e lutar pelos seus direitos. Com relação aos atos de violência cometidos por pequenos grupos durante os protestos, ele é bem direto:

"As manifestações de rua devem ser pacíficas e democráticas, todos nós dos movimentos jovens repudiamos as agressões cometidas pelas forças policiais aos manifestantes e a ação de uma minoria que foi às passeatas para praticar atos de vandalismo, ou mesmo agredir outros manifestantes."

Tokarski acredita que avaliação dos atos públicos é positiva, porque demonstra o aumentou no nível de consciência e exigência da juventude.

"No meio das pautas difusas, uma coisa é certa: a juventude quer ser ouvida e quer participar do processo de decisão das principais pautas do país. Isso se expressa na necessidade de realizar uma reforma política democrática no país. Fica evidente também o papel das redes sociais na convocação dos atos, na articulação de pautas e na conexão de pessoas nos quatro cantos do país e, claro, ao redor do mundo. É uma nova geração que sabe usar as ferramentas que as novas tecnologias propiciam para se comunicar, mas também para fazer política", considerou o presidente da UJS.

Em uma tentativa de comparação entre os recentes atos nacionais com a onda de mobilização popular e manifestos que tomaram conta de mundo, Tokarski não consegue encontrar uma identidade de ideais reivindicados nesses países.

"A primavera árabe tinha como bandeira fundamental a luta por liberdade e democracia, em países do norte da África e do Oriente Médio que conviviam, ou ainda convivem, com longas ditaduras. A Turquia é um país marcado por conflitos étnicos internos e já sofre com mais intensidade os efeitos da crise econômica mundial. Crise essa que afeta com muita força boa parte dos países europeus. O desemprego em países como Grécia, Portugal e Espanha já atinge cerca de 50% da juventude. A luta nesses países é para não perder importantes conquistas sociais efetivadas nos últimos 20 anos, mas o caminho conservador que a maioria desses governos tem tomado pode por tudo isso a perder e agravar ainda mais a crise", avaliou o líder jovem.

Ampliando a sua visão para o desenvolvimento social e econômico brasileiro, Tokarski acredita que o país já deu longos passos e fez avanços importantes, mas peca em fatores fundamentais, como os históricos de desigualdades e injustiças sociais.

"No Brasil, vivemos nos últimos 10 anos um período de importantes conquistas sociais e econômicas para a ampla maioria da população. As taxas de desemprego nunca foram tão baixas, inclusive entre a juventude. A expansão das universidades federais, que dobraram a oferta de vagas nos últimos anos, a retomada dos institutos federais de tecnologia e programas como Prouni e FIES possibilitaram o ingresso ao ensino superior de pelo menos dois milhões de jovens brasileiros, que antes jamais teriam essa oportunidade. Mas isso não significa que os problemas estão todos resolvidos. A juventude, em especial os jovens negros da periferia, são as maiores vitimas da violência. As mobilizações no Brasil são por mais direitos e mais conquistas. É um momento especial em que podemos aproveitar a energia e a força das mobilizações de rua para fazer transformações mais profundas na sociedade e acabar de vez com essa história de injustiças e desigualdades que o nosso país carrega desde a sua formação", completa Tokarski.

A iniciativa de aproximação do ex-presidente Lula das representações de movimentos populares despertou, de imediato, um forte interesse das classes mais crítica, que usaram as redes sociais para gerar especulações sobre as possíveis consequências dos encontros. Mas para os líderes dos jovens, esse passo representou uma vitória na luta pelos direitos da juventude e o fortalecimento da mobilização popular.  

"O Lula é uma figura ímpar na história do Brasil. Ele nos disse que o fato do povo ir às ruas em busca de seus direitos, é legítimo e mostra a força da democracia.  Quando o povo está debatendo democracia, política, nossa sociedade está se alimentando de mais esperança", acrescentou Melchior, completando com a informação de que o ex-presidente ressaltou a importância da proposta de reforma política apresentada por Dilma.

Depois do protesto realizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE), na quinta-feira (27/06), em Brasília, em prol da aplicação dos 10% do PIB para a educação, um grande ato nacional foi confirmado e já tem data para acontecer, será no dia 11 de julho. Esse protesto foi articulado em conjunto com vários movimentos sociais e juvenis e defenderá a reforma política, a reforma tributária, redução da jornada de trabalho, contra a cura gay, entre outros temas.

Lula nega críticas a Dilma 

Principal aliado da presidente Dilma na elaboração de uma agenda política para a realização de um plebiscito, Lula negou na sexta-feira (28/06) que tenha feita críticas à atuação da presidente Dilma Rousseff diante das manifestações realizadas no país. A reportagem publicada na Folha de São Paulo afirma que Lula, em uma conversa com aliados, teria chamado de "barbeiragem" e "atabalhoada" a proposta da convocação de uma constituinte exclusiva para discutir a reforma política, sem uma discussão prévia com o Congresso. No perfil do facebook, Lula classificou como "fantasiosas, sem qualquer base real” as opiniões foram atribuídas a ele. E completa: “Não fiz qualquer crítica nem em público, nem em privado à atuação da presidenta Dilma Rousseff nos recentes episódios".

Em outro trecho da publicação no facebook, Lula afirmou estar convicção de que Dilma “vem liderando o governo e o País com grande competência e firmeza, ouvindo a voz das ruas, construindo soluções e abrindo caminhos para que o Brasil avance”. Para o ex-presidente, Dilma teve extraordinária sensibilidade ao propor a convocação de um plebiscito sobre a reforma política.