No 'país do futebol', Pelé vira alvo de protestos brasileiros, diz NYT

Comumente referido como o "país do futebol" e reconhecido internacionalmente como a nação mais bem sucedida no esporte bretão, o Brasil enfrenta uma onda de protestos populares disposta a mudar esse conceito. Em meio à realização da Copa das Confederações, o gasto excessivo de recursos públicos na construção de estádios para a Copa do Mundo de 2014, diante de serviços públicos de baixa qualidade, faz com que até mesmo ídolos como Pelé e Ronaldo Nazário se transformem em alvos da indignação popular, como relatou na sexta-feira o jornal americano The New York Times.

"De forma inesperada, a obsessão do Brasil com o futebol se tornou um símbolo crescente do que aflige o País. Desde que os grandes protestos se espalharam pelo Brasil nesta semana, manifestantes tomaram as ruas às centenas de milhares para expor a sua indignação contra líderes políticos de todas as legendas, sob o reinado da corrupção, que prejudicam os serviços públicos", afirma o jornal.

De acordo com o NYT, os bilhões de dólares investidos nos estádios brasileiros motivaram boa parte da população a sugerir o que até pouco tempo atrás parecia impensável: boicotar a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. "Em uma demonstração de como o País está virado de cabeça para baixo, até mesmo alguns dos heróis do futebol brasileiro se tornaram alvos de críticas por distanciarem-se do movimento popular", atesta o jornal, que cita a fala da estudante universitária Gabriela Costa, 24 anos. "Pelé e Ronaldo estão ganhando dinheiro com a Copa e seus contratos de publicidade, mas e o resto do País?", questiona a manifestante.

A reportagem lembra que boa parte da indignação contra as duas personalidades reside em declarações recentes de ambos que minimizavam os anseios populares em detrimento do evento esportivo. Em vídeo que circula nas redes sociais, diz o jornal, Pelé pedia que os brasileiros "esquecessem os protestos" e focassem no futebol, enquanto Ronaldo aparecia em outra gravação analisando que Copas do Mundo são realizadas "com estádios, e não hospitais".

Segundo o jornal, mesmo o fato de a FIFA ter feito um pronunciamento declarando "total confiança" na habilidade do Brasil de garantir a segurança na Copa do Mundo 2014, descartando qualquer possibilidade de cancelar o evento ou mesmo a Copa das Confederações, foi motivo de constrangimento para o governo brasileiro, que fez grandes esforços para trazer as duas competições, além das Olimpíadas de 2016, ao País. "Agora, em vez de serem o ápice do crescimento Brasileiro, os eventos - e os enormes gastos necessários para sediá-los - se tornaram alvo dos manifestantes para mostrar como as prioridades do governo estão fora de sincronia com as necessidades do povo", analisa o New York Times.

O jornal lembra que a onda de protestos não poupa nem mesmo Neymar, a grande estrela contemporânea do futebol brasileiro. "Brasil, vamos acordar, um professor vale mais que o Neymar!", gritaram milhares de manifestantes nesta semana em frente ao estádio do Castelão, em Fortaleza (CE).