Marina Silva: protestos deixam Senado com medo de votar lei dos partidos

A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva disse neste sábado, em Foz do Iguaçu (PR), que os protestos que se espalharam pelo País nas últimas semanas inibiram parte do Congresso Nacional de votar a lei dos partidos, que dificulta a criação da nova sigla da ex-senadora, a Rede. "O efeito das manifestações pode sim estar influenciando os senadores, inibindo aqueles que não gostam de fazer as coisas nas praças, gostam de fazer segredo de alcova", afirmou.

Marina Silva se referiu ao adiamento da votação da medida, na última semana, assim como da Proposta de Emenda à Constituição (PEC 37), que limita os poderes de investigação do Ministério Público. Estão com medo de votar a lei da mordaça, que é essa lei dos partidos, e a PEC que tira os poderes do MP", afirmou a ex-ministra, que ainda evitou falar sobre benefícios que os protestos podem trazer para uma possível candidatura à presidência no ano que vem.

A líder ambiental afirmou que alerta há mais de três anos sobre o momento em que a indignação manifestada no mundo virtual transbordaria para o real. "Uma manifestação como essa não é para ser privatizada para um grupo ou outro. É para ser vista como grande contribuição para o Brasil", disse em entrevista à imprensa antes de sua palestra no Fórum Mundial de Meio Ambiente. Segundo ela, é preciso ter a humildade de perceber que a população não quer ser espectadora da política, e sim protagonista.

"Essas mobilizações são legítimas e não podemos, por causa de uma meia dúzia que faz atos isolados de violência, ignorar os milhões que dizem qual é o Brasil que querem agora e no futuro", disse ela, ao reforçar que o Brasil já está cansado dos partidos que fazem política apenas para manter o poder. 

Ao subir ao palco do evento para falar sobre sustentabilidade, novamente Marina lembrou os protestos e foi ovacionada pelos cerca de 400 empresários e ambientalistas presentes. "Acabou aquele modelo em que os políticos faziam mais do mesmo e estava tudo bem. Quando eu dizia para as pessoas sobre a criação da Rede, que seria uma espécie de cavalo de tróia, ninguém entendia. Mas agora elas estão compreendendo que é uma tentativa de atualização desse process político desgastado, atendendo esse novo mundo que não quer mais a lógica do poder pelo poder".

Ela ainda aproveitou para criticar a gestão de Dilma Rousseff, ao afirmar que um modelo político com 39 ministérios não atende mais aos anseios do País, embora tenha negado assumir o papel de candidata. "Não vou antecipar eleição. Quando saí da campanha (presidencial) em 2010, disse que não iria assumir a cadeira cativa de candidata". 

Após um discurso catedrático, com citações filósoficas, ela aproveitou para brincar sobre o jogo do Brasil contra a Itália, que acontecia no mesmo momento da palestra. "A minha assessora disse, quando estávamos vindo: Marina, a sua apresentação está marcada para o mesmo horário do jogo. Se fosse em outros tempos, não teria ninguém acompanhando, mas por aqui posso ver que as coisas realmente mudaram", bricou ao se referir à plateia lotada que não se importou em perder o clássico do futebol pela Copa das Confederações.

Lei que limita criação de partidos

A tramitação da matéria havia sido suspensa no Senado no fim de abril por decisão provisória do ministro Gilmar Mendes, que acatou um mandado de segurança apresentado pelo senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) contra o projeto por considerar que restringe direitos de grupos políticos minoritários. No entanto, na semana passada o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu liberar o trâmite, o que não se concretizou por causa do adiamento feito pelos senadores.